UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Literatura e diferença: obras deslocadas de seu tempo

 

O tema proposto para o Volume 6.2 da Darandina Revistaeletrônica levanta o problema da relação das obras com o seu tempo histórico, sugerindo a possibilidade de dessincronização entre uma obra e o momento da sua produção. Esta dessincronização parece ser fruto de dois processos distintos, mas que se reforçam mutuamente e produzem efeitos equivalentes: um processo interno à forma da obra, que a coloca programaticamente fora das estratégias de representação dominantes no campo literário; e um processo externo à forma da obra, constituído por convenções e códigos de recepção e leitura, que limitam a inteligibilidade e interpretabilidade das transformações operadas nas estratégias de representação.

Tais obras parecem assim desejar-se ilegíveis ou apenas parcialmente legíveis, já que a diferença que as define garante a descoincidência ou uma coincidência apenas parcial entre o modo de produção e o modo de recepção. A sua contemporaneidade seria fruto dessa extemporaneidade, isto é, da capacidade de gerarem uma sincronia não coincidente com a temporalidade meramente cronológica da sua produção, projetando-as para fora do seu tempo. A institucionalização de uma lógica vanguardista no campo literário, sobretudo a partir do primeiro modernismo, implicou a convencionalização desse processo interno e externo de produção de diferença, que permitiu a muitas obras abrirem modos de percepção e representação para além dos que estavam disponíveis.

Deste modo, a obra fora do seu tempo funcionaria, ao longo do tempo, como um instrumento para recalibrar modos de percepção e representação da experiência, incluindo aqueles que permitirão (re)lê-la. De uma forma paradoxal, a possibilidade futura de ler obras passadas que se dessincronizaram do seu tempo parece depender desse mecanismo de inscrição da diferença nas próprias criações, concebidas intuitivamente para alterar as condições de legibilidade de si próprias. Ao confirmar retrospetivamente a presença extemporânea do tempo nas obras fora do seu tempo, reencontramos no seu poder de interpelação a nossa capacidade renovada de leitura. E esse duplo deslocamento é afinal uma reentrada no tempo, nossa e das obras que lemos fora do seu tempo.

 

Manuel Portela

Professor do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coordena atualmente o ‘Doutoramento em Estudos Avançados em Materialidades da Literatura’.  Na última década dedica-se a investigar a digitalização da literatura, tendo criado diversos programas no domínio das Humanidades Digitais. É o investigador responsável pelo projeto ‘Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego’ (FCT, 2012-2015). Sua mais recente publicação é Scripting Reading Motions: The Codex and the Computer as Self-Reflexive Machines (MIT Press, 2013).

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