UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Este número da Darandina Revisteletrônica que tenho a satisfação de apresentar se dedica a um tema, as escritas de si, que vem interessando, já há algum tempo, a pesquisadores de diferentes áreas.

No campo das ciências sociais e políticas e da história, as trajetórias particulares e o ângulo de percepção subjetivo tornaram-se objeto de estudo privilegiado para a apreensão de uma época e dos mecanismos sociais, parecendo prolongar reflexivamente as reflexões de Antonio Gramsci, nos anos trinta, sobre a importância do que ele denomina “a vida em ato”:

A autobiografia pode ser concebida “politicamente”. Sabe-se que a própria vida é semelhante a mil outras vidas, mas que por “acaso” ela tomou uma direção que as outras não podiam tomar e de fato não tomaram. Narrando, cria-se esta possibilidade, sugere-se o processo, indica-se a direção. Assim, a autobiografia substitui o “ensaio político” ou “filosófico”: descreve-se em ato aquilo que de outro modo se deduz logicamente. É certo que a autobiografia tem um valor histórico, na medida em que mostra a vida em ato e não só como deve ser segundo as leis escritas ou os princípios morais dominantes. [1]

Nos anos 1970, “A vida dos homens infames” (1977) de Michel Foucault, que seria inicialmente o prefácio de um projeto que acabou não sendo realizado — “Antologia de existências” — e também Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (1973) testemunham o interesse e a preocupação com a questão do sujeito, a subjetivação e a individuação, desvelando mecanismos individuais de resistência e sujeição às injunções sociais. Mais tarde, em “A escrita de si” (1983), Foucault abordará o que denomina “as artes de si mesmo”, a autoconstrução pelo trabalho da escrita.

No campo dos estudos literários, que nos interessa aqui, as escritas de si — autobiografias, memórias, diários e cartas — deixaram de ser simples textos de apoio para o estudo da obra de um autor e passaram a constituir corpus privilegiado de publicação e análise crítica. Uma contribuição relevante, nesse movimento, foi a de Philippe Lejeune que, nos anos 1970, abandona uma tese sobre a história da palavra literatura para se dedicar a um estudo que daria à autobiografia suas cartas de nobreza. Assim, o crítico publica, em 1971, L´autobiographie en France e, depois, “O Pacto autobiográfico” — em 1973, na revista Poétique e, em 1975, como ensaio de abertura de uma coletânea de mesmo título. O conceito de “pacto autobiográfico” permitia distinguir a autobiografia das obras de ficção e do romance autobiográfico, mas não apenas isso. Tratava-se sobretudo de um gesto político: afirmar a escrita do eu como gênero e abrir caminho para a possibilidade de estudá-la como texto esteticamente elaborado, e não como mero documento informativo sobre o autor ou chave de compreensão para sua obra ficcional. 

Nos últimos tempos, outras categorias conceituais vieram integrar esse imenso conjunto autodiscursivo, notadamente a autoficção, neologismo criado pelo escritor e crítico francês Serge Doubrovsky. Em 1977, partindo de um diálogo com o Pacto de Lejeune, Doubrovsky forja o termo para nomear seu esforço de reconstituição de si que, em seu livro Fils, combina um material referencial — sua vida — e uma configuração ficcional, ou seja, recorre a procedimentos e estratégias do romance contemporâneo para textualizar a própria existência. Retomado por diversos autores, na França e entre nós, o neologismo passou a significar muito mais do que tencionava seu autor. Essa noção sedutora é bastante complexa, nebulosa e polêmica e acaba por agregar coisas bem distintas: desde narrativas que seguem o protocolo de Doubrovsky, passando por narrativas híbridas — como propõe Silviano Santiago — que excluem o confessional, mas não a experiência, até a pura fantasia, englobando diferentes estratégias bem diferentes de “ficcionalização de si”, como sugere Vincent Colonna.

Mas nem só de autoficção vivem as escritas do eu. Muitos são os autores que optaram por conciliar a forma artística e a busca de alguma forma de verdade sobre si, construindo o que Paul Ricœur chamou de “identidade narrativa”. O conceito contribui para o entendimento do gênero autobiográfico não como uma tradução de um suposto real, de uma suposta verdade de referência de um sujeito, preexistentes ao texto, mas como autocriação discursiva, como promessa mínima de unidade da identidade pessoal, como tentativa de compreensão de si através de uma interpretação cuja mediação privilegiada é a narrativa. Nessa perspectiva teórica se inserem também críticos como Philippe Lejeune que passou a se dedicar ao estudo dos diários — o que ele chama de antificção — e que, em seu último livro, alarga a noção de autobiografia: “entende-se aqui por autobiografia todos os textos escritos (narrativas, diários, cartas) nos quais se fala de si assumindo o compromisso com outrem ou consigo de dizer a verdade”.[2]

É nesse movimento crítico-analítico em torno das escritas de si que se inscreve este número da Revista Darandina mostrando, mais uma vez, estar antenada com as questões que animam o debate acadêmico. Finalizo com meus cumprimentos aos organizadores e editores do número — os estudantes da Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFJF — e aos colaboradores. Expresso meu agradecimento pela oportunidade de apresentar um tema que me é tão caro e cuja importância poderia, a meu ver, ser assim resumida: “todos os homens que andam na rua são homens-narrativas, é por isso que conseguem parar em pé”.[3]

 

Jovita Maria Gerheim Noronha

Professora do Programa de Pós Graduação em Letras – Estudos Literários da UFJF

 

[1] Cadernos do Cárcere. Volume 4. Edição de Carlos Nelson Coutinho, com Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

[2] Autogenèses. Les brouillons de soi, 2. Paris: Seuil, 2013.

[3] Philippe Lejeune, Signs de vie. Le pacte autobiographique 2. Paris: Seuil, 2005.

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