UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Literatura e cultura de massa: uma apresentação

Anderson Pires da Silva

 

Começo esta apresentação com uma experiência particular: no ano 2000 defendi minha dissertação de mestrado – Isto está no gibi: as histórias em quadrinhos como extensão da literatura. Embora tenha recebido uma nota dez, os examinadores (incluindo meu orientador) não estavam lá muito convencidos, mas a nota fora garantida pelo meu trabalho se enquadrar na área de pesquisas interdisciplinares.

O boom desses estudos interdisciplinares ocorreu entre 1960/70, quando são publicados no Brasil obras como Apocalípticos/integrados e A obra aberta de Umberto Eco. Todos publicados pela editora Perspectiva, à época dominada pelo núcleo duro da vanguarda concretista de São Paulo. Aliás, Décio Pignatari publicou o livro Contracomunicação, escrevendo textos sobre literatura, histórias em quadrinhos, futebol, artes plásticas e cinema, inclusive propôs o roteiro de cinema como um “novo gênero literário”.

No entanto, é impossível pensar a cultura de massa – e isso fica mais explícito agora – sem pensar na tecnologia e sua comercialização, ou seja, sua introdução no cotidiano de forma vital. Evidentemente cultura de massa é um aspecto do cosmopolitismo urbano, mas o que tornou, por exemplo, Os irmãos coragem um fenômeno de massa em 1972 foi a media televisão. Por isso, para mim, a obra Os meios de comunicação de Marshall McLuhan é importante ainda.

Grande parte da intelectualidade brasileira o considerou um ideólogo do imperialismo americano, por causa de sua afirmação de que, com a TV e a transmissão via satélite, o mundo havia se transformado em uma “aldeia global”. José Ramos Tinhorão em entrevista questionou: “Se o mundo é uma aldeia, quero saber quem o cacique?”[1]

Porém, a mais original contribuição de Marshall McLuhan para os estudos sobre cultura de massa foi a sua proposição de que os meios de comunicação são extensões do cérebro humano. Para o professor de literatura McLuhan, quando um novo instrumento tecnológico é inserido de forma vital no cotidiano, provoca mudanças profundas nos modos de pensar e agir, um dos exemplos contundentes, em sua visão, foi a invenção da imprensa (a Galáxia de Guttemberg). O livro com sua ordem ocidental de leitura da direita para esquerda, exigindo um pensamento linear, facilitou a exposição de ideias dos neo-racionalistas do Iluminismo. De outra forma, a transmissão via satélite – como o assassinato de Kennedy ou o 11 de setembro – envolveria as pessoas de diferentes nações em um mesmo acontecimento, iria criar um tipo novo de cosmopolitismo independente do território nacional.

A mais contundente contraposição às ideias de McLuhan – aliás, anterior aos seus escritos – vem de Adorno e Horhkeimmer, no fundamental A dialética do esclarecimento, em particular o capítulo “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”. Todo o avanço tecnológico que, para os “integrados”, representa uma pluralidade, segundo os autores, é controlado pelo poder que os economicamente mais fortes exercem sobre os mais fracos, por isso os produtos da indústria cultura – música pop, hollywood, séries de tv -, reproduzem a lógica moral do capital, pornográfica e puritana ao mesmo tempo.

Para nós, agora, que vivemos no ainda inexplicável século XXI, parece claro que, em relação à Internet, o termo cultura de massa adquire outro aspecto. É fato que, como McLuhan vislumbrou, o acesso à tecnologia em larga escala acabaria com qualquer tipo de fronteira hierárquica; assim como também é fato, como Adorno apontou, que esses instrumentos de liberação – como o rádio ou o facebook – podem se converter rápido em instrumentos de opressão.

É nessa zona de atrito que os textos reunidos neste volume da Darandina se movimentam. O garoto que estava lendo Watchmen em 1988 agradece.

 


[1] Cf: Livro de cabeceira do homem. Vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1975.

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