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ISSN 1983-8379

Editorial

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Considerada por Ricardo Piglia “o grande gênero moderno” (2004, p. 57), a literatura policial surgiu quando Edgar Allan Poe apresentou ao leitor o detetive C. Auguste Dupin, em 1843, em Os assassinatos da Rua Morgue. Naquela época, com o processo de urbanização e o aumento da criminalidade, a sociedade passou a demandar um contingente de detetives que integrassem as forças policiais, a exemplo da Inglaterra, que criou, em 1842, o departamento de investigação da Polícia Metropolitana (JAMES, 2012).

Esta edição da Darandina Revisteletrônica é uma homenagem a Poe, que teria completado 210 anos em 19 de janeiro de 2019. Nos três contos em que desenvolveu a personalidade de Dupin, estabeleceu os padrões para este indivíduo que observa o mundo como um outsider, estando “fora de qualquer instituição” (PIGLIA, 2004, p. 58), buscando a verdade por trás de crimes a fim de se fazer cumprir a lei, uma vez que a polícia não é capaz de coibir a violência.

Na Inglaterra, em 1887, o médico Sir Arthur Conan Doyle incrementa o modelo detetivesco, altamente racional e voltado para a solução de verdadeiros enigmas, através das histórias de Sherlock Holmes, talvez o mais famoso dos investigadores da literatura. Utilizando-se da ciência e de métodos lógicos e dedutivos para solucionar os crimes, Holmes se mostra popular até os dias de hoje, figurando em mídias diversas, com releituras e adaptações que vão dos quadrinhos aos videogames, passando por filmes e seriados.

É justamente às histórias do icônico detetive britânico que o artigo de Jéssica Maria Sampaio de Lima, “Mary Watson através do tempo: um estudo sobre adaptação e representatividade feminina”, remete. A autora faz uma análise comparativa entre a esposa de Dr. Watson das narrativas de Conan Doyle e aquela repaginada na adaptação para a série de TV Sherlock, que transpõe os personagens para o século XXI, trazendo novas tramas.

Lembrado não apenas pela criação do gênero policial, mas também por suas narrativas de mistério, Poe é o objeto de estudo de dois artigos nesta edição.

Jorge Lucas Marcelo dos Santos, em “As estruturas semionarrativas do conto ‘O retrato oval’, de Edgar A. Poe: os percursos de sentido à luz da semiótica”, busca a semiótica no modo como este texto aborda a morte no encontro entre dois relatos que se cruzam de forma sombria.

Também Juliana Bellini Meireles, em “Os assassinatos da Rua Morgue – uma tradução gamificada da obra de Edgar Allan Poe”, trata do autor norte-americano e de como a série de jogos Black Stories dialoga com a obra que inaugurou o gênero policial na literatura a partir da tradução intersemiótica.

Marcos Aparecido Pereira e Epaminondas de Matos Magalhães, por sua vez, em “O jogo da descoberta: o gênero policial na formação de leitores literários”, promovem uma reflexão acerca dessas narrativas tão populares e que apresentam um importante papel na formação de leitores, apresentando grande potencial para serem aplicadas nas escolas.

Os desdobramentos dessa literatura que permaneceu popular ao longo dos últimos séculos e que se adaptou a uma realidade cada vez mais caótica, complexa e violenta, confirmam o fascínio que o gênero ainda exerce ao representar a sociedade e procurar desnudá-la em suas facetas mais obscuras.

A chegada do século XX e suas crises, adicionada à atuação de gangues nos Estados Unidos, refletiu na produção literária com romances noir, com detetives mais humanizados em cenários urbanos decadentes que, inevitavelmente, afetava os sujeitos que ali viviam. Embora ainda prezando pela moral da lei a fim de combater o crime, esses investigadores já não agiam sempre tão racionalmente, por vezes recorrendo à violência e deixando-se levar por vícios – principalmente no álcool e no cigarro.

Não à toa o Brasil ganhou, em fins da década de 1960, um subgênero literário bastante característico, tendo em Rubem Fonseca seu precursor: o brutalismo. O estilo deixa de lado qualquer traço de heroísmo que os detetives ainda possam conter, profundamente endurecidos e corrompidos por uma sociedade cada vez mais violenta, excludente e cruel. Nesse sentido, a violência não está apenas nas histórias, mas também na linguagem, que atinge o leitor e o insere nesse cenário nada amigável, mas excessivamente real.

Schøllhammer (2013) aponta para como autor e leitor partilham uma espécie de cumplicidade criminosa, sendo o escritor um criminoso para aquele que lê uma obra de forma crítica e que, portanto, se coloca diante de um crime que precisa ser desvendado em suas nuances. O texto é o crime em si.

Contribuindo com essa equação, Murilo Eduardo dos Reis e Maria Célia de Moraes Leonel, em “O detetive como leitor em O caso Morel, de Rubem Fonseca”, demonstram como o trabalho investigativo do escritor e ex-policial Vilela são análogos à função do leitor, que desvenda o texto-crime a partir de análises linguísticas e narrativas.

Por fim, Raphael Valim da Mota Silva, em “Assassinato sem crime, tesouro sem ouro: a ironia crítica de Henry James em ‘O desenho no tapete’”, traz uma novela que representa as narrativas de mistério para além dos padrões associados ao gênero. Embora apresente um investigador em busca de respostas, o autor concebe uma história sem fechamento satisfatório, em que predomina a ironia.

Esta edição conta ainda com a resenha “O outro nas políticas de sofrimento do eu em Cancún, de Miguel Del Castillo”, por Pedro Barbosa Ruduge Furtado, que faz uma leitura psicanalítica da dor narrada na prosa do escritor carioca.

Os textos de criação são de autoria de Rizzia Rocha, com o conto “Despejo”, bem como as poesias de Edmon Neto, “Dísticos para dois em noite que se anuncia longa”; Luigi Caruso, com “O mais profundo é a pele”, “Outono” e “Panfleto-berro”; e Patrícia Aniceto, com “Entre flores”.

Francine Natasha Alves de Oliveira
(doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Letras:
Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora; bolsista CAPES)

Referências

JAMES, P. D. Segredos do romance policial – História das histórias de detetive. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

PIGLIA, Ricardo. Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Cena do crime: Violência e realismo no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

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