UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Romance policial como tecnologia de imagens

O romance policial, na interpretação correntemente aceita, prepara os moradores dos centros urbanos para os choques decorrentes do crescimento das cidades e da população, uma espécie treinamento para novas experiências comportamentais e estéticas, que se tornam comuns a partir da modernidade.  O folhetim, esse filho bastardo da literatura com o jornalismo, atua com o romance policial para produzir adaptações diante do quatro de inovações

A cidade é insegura. O romance policial e o folhetim são elementos disciplinadores e também manuais de instruções ou guias de sobrevivência.  É a compreensão de que os sistemas narrativos estão sempre condicionados à questão da segurança pública. No século XIX, o romance policial também se consagra como um manual em forma de narrativas, contendo advertências, sustos, choques, reviravoltas e sobressaltos, em consonância com o clima de excitação nervosa e risco corporal.

O romance policial é o espelho de um mundo assustado, embalado no comércio de choques sensoriais e no declínio das condições de previsibilidade. O detetive é o especialista que sabe se movimentar na poluição e no engarrafamentos das cidades, que sabe nomear os novos tipos de violência, que se movimenta nas transações econômicas velozes.  O romance policial,  como o folhetim, vai funcionar como duplicador, repassador, tradutor, sampleador, ampliador,  armazenador de informações, manual de instruções, catálogo de expressões e reações dos contratempos cotidianos.

O mercado possibilita a cultura de massa, a indústria cultural. Esse mercado está na multidão. A multidão permite o anonimato que, por sua vez, facilita o crime. A poluição como metáfora do adensamento vai existir até a contemporaneidade.  A poluição fere os sentidos e o ser urbano sente dificuldades em reconhecer o seu território. Por isso, a multidão tem, ao mesmo tempo, algo de excitante e de repugnante. O olhar ofuscado pela poluição precisará de orientações para ver nos adensamentos urbanos e para funcionar como item de segurança e ser recurso indispensável à segurança. A cidade no romance policial é local de crime.

Poe é um um fisiognomista e escreve histórias com imagens. A multidão é um enigma e se mostra em sua opacidade para ser revelada (assim como na fotografia, que é contemporânea do romance policial).  A fisiognomia concentra-se na criação de um padrão que possa ser aplicado a cada rosto, traduzindo a exterioridade em caráter. O detetive de Poe quer olhar a cena do crime e fazer uma leitura completa, quer não só elucidar, mas antever, antecipando o sonho do Minority Reporter, de Philip Dick.

Fisiognomia e antropologia criminal se juntam para imortalizar as máximas disciplinadoras do romance policial: “o crime não compensa” e “não existe crime perfeito”. Esse tipo de literatura vai gerar um gosto avesso ao crime não solucionado, pressionando as práticas periciais no sentido da eficiência. O detetive é a arma de combate ao anonimato da multidão, que surge como probabilidade de risco. O sujeito da multidão não tem registro, não se assujeita. Contra ele, o  detetive une técnica e habilidade correspondentes e superiores a qualquer “desvio de conduta”.  O detetive policial deve perseguir e observar por dentro da multidão e “organizar” os elementos pulsantes da desordem. O detetive policial é o adversário  do “homem da multidão”, de Poe.

Poe dá os primeiros passos do romance policial no conto inaugural intitulado Os crimes da rua Morgue, escrito em 1841, no qual ensina a policiar a partir dos jogos: “Examine a fisionomia de seu companheiro, comparando-a cuidadosamente com a de cada um dos seus oponentes”. E complementa, dando outras dicas: “Note todas as variações que se operam nas fisionomias à medida que o jogo prossegue, reunindo grande número de ideias através das diferenças que observa nas expressões dos companheiros”.

Os crimes da Rua Morgue é um tipo de argumento com exemplos de como  transferir saberes da observação de um jogo de xadrez para a investigação criminal. Edgar A. Poe acreditava no saber da visão na construção de um código de passagem, com o qual seria possível transformar em texto tudo que se via. A partir de seu romance policial seria possível inferir que as coisas visíveis possuiriam em si uma “essência”, uma identidade. O olhar, por ser selvagem, estaria perto da honestidade, da pureza, do primitivo e, por isso, seria uma ferramenta essencial para combater o crime, que habita, nessa perspectiva, o reino do não cultivado. Esse saber arcaico do olhar, da imagem, gera uma identidade com qualquer tipo de crime e garante  acesso ao recôndito, ao bizarro, ao proscrito. Em Os crimes da Rua Morgue,  o assassino não pertence ao mundo da cultura.  Ao se evocar o selvagem, chega-se à entrega e à morte, nas quais o animal vive sem reservas.

Poe vai buscar inspiração na fisiognomia de Lavater, por se tratar de um desvendamento da multidão e uma resposta  ao  contexto moderno, na tentativa de catalogar todos os tipos perigosos que se encontram nas cidades.  O acentuado tom fantasioso e o determinismo biológico de Lavater teria influenciado uma geração de autores devido ao seu empirismo autêntico de colecionador. Da observação dos casos particulares à generalização, surge uma série de estereótipos, que vão basear as obras de Bertillon, Lombroso e Nina Rodrigues, só para citar alguns. A geração influenciada passou da coleção de pitorescos tipos urbanos para a pesquisa da motivação dos interesses das pessoas nas cidades.

Em outro conto, O homem da multidão, os propósitos de catalogação dos tipos urbanos fica mais evidente. Poe promove sua notória classificação a partir dos aspectos mais persistentes do corpo, do gesto e do vestuário, mas deixando claro que a “essência” de todo crime continuaria irrevelada por pertencer à interioridade, sendo sinônima de uma consciência individual, portanto intransferível.

Poe exibe sua habilidade  classificatória: “fidalgos, negociantes, advogados, comerciantes, agiotas, homens de lazer, mendigos, prostitutas, inválidos débeis e cadavéricos, jogadores, cafetão de indumentária infame” e muito mais. A descrição quase sempre é uma qualidade que requer uma sedimentada posição social: “Robustos mendigos profissionais, a decaída leprosa em andrajos, a bruxa enrugada, a mera criança de formas imaturas, camelôs judeus, dândis e militares” (POE, 2001, p. 28).

A habilidade do detetive está na virtuose de leitura das características externas, como a identificação imediata de um batedor de carteira, que chegava a ser confundido pelos próprios cavalheiros. Poe os identifica: “O tamanho exagerado de seus punhos de camisa e um ar de franqueza deveriam traí-los imediatamente” (POE, 2001, p. 29). A categoria dos altos funcionários de firmas sérias ou dos senhores estáveis é identificada também de maneira não menos curiosa: “Eram todos levemente calvos e a ponta de suas orelhas tinha adquirido, pelo longo hábito de suster uma pena, um desvio esquisito” (p. 29). Tudo isso para concluir: não há saída, não adianta fugir. O romance policial é uma tecnologia de imagens.

O homem da multidão é a metáfora da vida como um livro aberto, no qual se lê a lisura e a bondade de caráter e a desonestidade e a maldade. Mas Poe desconfiava do alcance dos seus métodos, como se estivesse limitando sua “clínica fisiognômica”. O mundo estava crescendo e nem tudo era passível de controle e vigilância.  Daí, ele começa o seu famoso conto com uma advertência, referindo-se a um certo livro alemão que não se deixa ler: “Es lasst sicht nicht lesen”. É o novo.

Professor Dr. João Barreto da Fonseca

(Curso de Comunicação e Programa de Pós-Graduação em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei)

Referência:

POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Companhia de Bolso, 2001.

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