UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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A Ficção Científica em foco

Considerada durante muito tempo, pelos círculos acadêmicos, como um gênero menor, a Ficção Científica emerge, a partir do século XX, como uma das mais profícuas formas de criação artística para reflexões sobre as ações humanas. Este não é, no entanto, um gênero novo, e, de acordo com alguns teóricos como Adam Roberts (2000; 2018), remonta a interlúdios populares característicos da cultura antiga.

Como pontua Braulio Tavares (2018), tradutor de obras de H. G. Wells e Philip K. Dick para a língua portuguesa, a Ficção Científica não se desenvolveu ao longo dos séculos de uma forma linear, uma vez que as criações ficcionais especulativas que acabam por receber este rótulo ramificam-se por diversos caminhos. Como gênero, a Ficção Científica abriga uma miríade de vertentes, cujos critérios de diferenciação, para fins críticos, são baseados em tendências temáticas guiadas muitas vezes pelo “espírito do tempo”, o Zeitgeist de uma época, e/ou pelas inovações tecnológicas que modificam as relações humanas à medida que se desenvolvem.

Suas vertentes mais clássicas e populares são aquelas que se assemelham às voyages extraordinaires pelo espaço, como as narrativas de Cyrano de Bergerac e suas derivações mais modernas, como a Space Opera, cujo exemplo mais conhecido é a série Star Wars. Nas últimas décadas, a difusão do gênero se deve também à profusão de narrativas utópicas e distópicas, que apresentam temáticas que se norteiam por problemas ambientais, desigualdades sociais e pelas consequências culturais causadas por regimes político-ideológicos. 

A 23ª edição da Darandina Revisteletrônica tem como proposta a publicação de artigos científicos acerca de narrativas inscritas sob o rótulo de Ficção Científica, considerando, sobretudo, a diversidade de formas nas quais este gênero pode se apresentar. O dossiê apresenta ainda alguns textos de criação de temática livre, como os poemas “Trindade”, “Falsas notícias” e “O Gato”, de autoria de Alex Rezende Heleno, além de duas criações de Brenda K. Souza, intituladas como “Saturnina” e “Matemática de águas”. Ainda dentro do rol de textos de criação de temática livre, publicamos o conto “A revelação do Aquário”, de Patrícia de Paula Aniceto, bem como um poema de sua autoria, “(Des)esperança”.

Bárbara Braga Penido Lima nos presenteia com o conto “Aurore: Dream Machine”, que remete os leitores ao cenário distópico em que Constance, uma menina de quinze anos, resiste contra o apagamento das memórias coletivas e das identidades individuais. A narrativa abrange algumas das temáticas que perpassarão os artigos publicados nesta edição: a memória, a identidade, a tecnologia e a resistência.

Dois artigos em língua inglesa compõem este dossiê: “Healing in Life is Strange: the possibilities of dual-witnessing as a player”, de Rosana Ruas Machado Gomes e “Estrangement and cognition – Time travel paradoxes and social engineering in Isaac Asimov’s The End of Eternity”, de Israel Noletto e Sebastião Lopes. O primeiro aborda a interatividade proporcionada pelo jogo Life is Strange, que relega ao jogador (ou leitor) um status de testemunha e de sujeito agente, capaz de auxiliar no processo de cura da personagem Kate Marsh. O segundo, por sua vez, nos proporciona um estudo de caso da obra The End of Eternity, abordando os clássicos conceitos de estranhamento e cognição, fundamentais para a compreensão e análise de narrativas do gênero.

As autoras Isabella Tagata Ferreira e Priscila Aparecida Borges Ferreira Pires fundamentam-se em pressupostos conceituais a fim de definirem como distópica a obra Jogador Número 1, de Ernest Cline, em “Entre Admirável Mundo Novo e Jogador Número 1: a distopia cibernética de Ernest Cline”, enquanto Fabiana Simão Bellizzi Carneiro, autora do artigo “Da Mitologia à Ficção Científica: O mundo (dis)utópico de Monteiro Lobato no conto ‘Era no Paraíso’” tensiona os conceitos de utopia e distopia, apoiando-se no conto do escritor brasileiro. Já Gladson Fabiano de Andrade Sousa, em “Dialética do esclarecimento: As (in)consequências da razão em A Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek”, nos traz uma epistemologia acerca da instrumentalização da razão no pensamento ocidental, pautando-se na peça teatral do autor checo Karel Tchápek. Jivago Araújo Holanda Ribeiro Gonçalves, por sua vez, no artigo “A natureza distópica da revolução na narrativa gráfica Shangri-la, de Mathieu Bablet”, tece reflexões sobre os impactos do capitalismo na sociedade contemporânea, atentando-se para os resquícios revolucionários latentes nos sujeitos imersos nesse sistema.

Em “Para Lisle ou São Paulo: o aspecto racial em Strangers e Hunter’s Run”, Arthur Maia Baby Gomes compara os romances Strangers, de Gardner Dozois, e Hunter’s Run, do mesmo autor em coautoria com Daniel Abraham e George R. R. Martin, abordando aspectos raciais nessas narrativas. Na mesma esteira, Bruna Martins de Oliveira e Relines Rufino de Abreu analisam o romance Kindred – Laços de Sangue, da escritora estadunidense Octavia Butler. Este artigo ressalta as relações entre a Ficção Científica e o Feminismo Interseccional, apontando as formas de silenciamento a que mulheres negras são submetidas ao longo da história.

Amparados por abordagens interdisciplinares, Lauro Meller, em “The Midwich Cuckoos, de John Wyndham: da novela de Ficção Científica às suas adaptações para o cinema e para a música”, e Naiara Sales Araújo Santos em coautoria com Jucélia de Oliveira Martins, no artigo “A Robótica e a Ficção Científica: primeiras interações”, estabelecem relações entre a Ficção Científica e outros campos do saber. Lauro Meller compara a novela de Wyndham a três de suas traduções intersemióticas: os filmes Village of the Damned e Children of the Damned, bem como a canção “Children of the Damned”, do grupo de heavy metal Iron Maiden. As autoras das intituladas primeiras interações entre a Robótica e a Ficção Científica, pertinentemente, valem-se de diversificados aportes teórico, a fim de estreitar relações entre a Literatura e a tecnologia moderna.

Esperamos que a 23ª edição da Darandina Revisteletrônica possa trazer contribuições às reflexões acerca deste campo fértil que é a Ficção Científica. O olhar para o futuro, a partir da especulação, auxilia-nos imensamente a refletirmos sobre o nosso presente.

Mª. Mariana Mendes Flores

(Editora da Darandina Revisteletrônica 2018/2019)

Darandina Revisteletrônica