UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Há quase quinhentos anos, em 1543, o lançamento da obra De Revolutionibus Orbium Coelestium dava início à revolução copernicana dos céus. Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a resposta religiosa à época foi tímida. É certo que, um ano antes, o Papa Paulo III havia fundado a Congregação para a Inquisição Romana, mas a preocupação da Igreja Católica se concentrava na “heresia” reformista. Provavelmente, as proposições do cônego polonês pareciam extravagantes demais para merecerem muita atenção.

Seriam necessários mais setenta anos de maturação para que – revisitadas por Galileu – as teorias de Copérnico começassem a incomodar. Um grupo cada vez maior de clérigos percebia que – através desse novo olhar – a abóbada celeste já não era mais a mesma. Na verdade, a perda do controle dos dogmas religiosos sobre a descrição do espaço era só a primeira fase da travessia: os séculos seguintes trariam – com Darwin, Einstein e muitos outros – uma outra perspectiva acerca do tempo.

No primeiro capítulo do Livro de Gênesis, há uma alegoria a respeito da maneira como Deus criou espaço e tempo. Quando a ciência produziu as primeiras teorias consistentes a descreverem o espaço, o tempo e os acontecimentos que os povoam, floresceu a literatura de ficção científica. Desvalorizada em muitos círculos acadêmicos, ela produziu numerosos sucessos editoriais, além de produções cinematográficas e televisivas que alcançaram (e ainda alcançam) multidões.

O motivo? Talvez porque – num ambiente altamente povoado pelas tecnologias – a ficção científica nos oferece um espaço privilegiado de reflexão a respeito de nossas angústias e nossos consolos, nossos temores e nossas esperanças. Se antes nos amedrontávamos com a influência dos demônios, atualmente a chegada de alienígenas hostis nos assusta. Ontem, eram as pragas do Egito; hoje, o apocalipse ganha os contornos de uma doença causada por vírus desenvolvidos em laboratório. Ou de uma ferramenta que se recusa a nos dar um habitat.

Por outro lado, se outrora atravessávamos desertos na esperança de encontrarmos a Terra Prometida, no presente buscamos nos rebeldes de galáxias distantes a inspiração para sobrevivermos às tiranias. E o Paraíso com que sonhávamos no passado, hoje, também se reflete num universo ficcional onde somos fundadores de uma federação que reune uma multidão de sistemas estelares.

Num momento em que o pensamento científico e a academia são alvo de diversos questionamentos no mundo todo, é imensamente oportuno que a revista Darandina, em sua 23ª edição, coloque em foco a ficção científica. Que os artigos que formam este volume sirvam não só para refletirmos sobre nossos temores e nossas esperanças, mas que também contribuam para o enriquecimento dos debates acadêmicos acerca do assunto.

Prof. Dr. Cristiano Otaviano

(Professor no Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei)

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