UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação / Editorial

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            Os estudos literários têm se debruçado cada vez mais na pesquisa acerca de grupos minoritários e de suas intersecções culturais na contemporaneidade, pontuando a importância do processo de crioulização, principalmente enquanto espaço de questionamento e de reflexão sobre o lugar a partir do qual o escritor emite a sua voz. Édouard Glissant, em seu livro  Introdução a uma poética da diversidade (2013), desenvolve uma reflexão em defesa da diversidade das culturas, partindo da análise das identidades culturais do espaço geopolítico correspondente ao Caribe e às Américas. Sua reflexão tem o objetivo de abordar os conflitos e as negociações entre as línguas e as linguagens, entre as culturas e as identidades em movimento dentro do processo de crioulização, sendo este relativo aos povos que experimentam o processo de globalização. Assim, Glissant propõe uma estética da Relação no que se refere à identidade das minorias, à função emancipatória das literaturas dos povos em face da dominação política e econômica e, também, ao processo de invisibilidade de manifestações culturais de grupos periféricos.

            Nessa perspectiva, a 22ª edição da Darandina Revisteletrônica traz textos que dialogam com o processo de crioulização e com a complexidade das questões culturais colocadas aos povos historicamente colonizados, e que hoje vivenciam os impactos dos processos de globalização. O artigo que abre esta edição, “O que eu faço com a minha cara de índia? Literatura e resistência em Eliane Potiguara”, de Aline Guimarães Couto, reflete sobre essa literatura que vai em contramão ao pensamento de uma raiz única do Ocidente, imposta pelos colonizadores e absorvido pelos colonizados, através de reflexões acerca do conceito de Identidade ao analisar a obra Metade cara, metade máscara da escritora indígena Eliane Potiguara.

            Ainda no campo de autoria feminina, o artigo “A poética da relação nos textos de autoria feminina negra”, das autoras Cristiane Veloso de Araujo Pestana e Márcia de Almeida, tem como objetivo analisar a linguagem da literatura afro-brasileira de autoras mulheres em relação a conceitos de identidade propostos por Édouard Glissant. Sobre representações da mulher negra na literatura e suas relações afetiva-sexuais, o artigo “Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas: reflexões acerca da afetividade e solidão da mulher negra”, de Lorena Ribeiro Ferreira, traz uma análise da peça Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas, da escritora Cidinha da Silva. Em relação à escrita de mulheres negras, “Paulina Chiziane e a voz feminina moçambicana através do texto literário”, sob autoria de Érica Luciana de Souza Silva, procura se ater ao estilo de escrita da autora moçambicana e, assim, reflete sobre o caráter transgressor de seus textos e a importância deles para a história literária. Temos, então um passeio por diversas obras da escritora Paulina Chiziane e reflexões teóricas sobre elas.

            No artigo “América Latina: negritudes e identidades em tempos de globalização”, de  Cristian Paula Santana e Leoné Astride Barzotto, encontramos reflexões sobre a manifestação da negritude na América Latina em tempos atuais, utilizando como base para essas discussões autores como Aimé Césaire, Frantz Fanon, Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Emir Sader. Já no artigo “Diáspora, exílio e identidade no romance: Zumbi dos Palmares por Leda Maria de Albuquerque”, as autoras Karla Cristina Eiterer Rocha e Enilce do Carmo Albergaria da Rocha buscaram analisar os aspectos relacionados à diáspora, ao exílio e à identidade dos negros na obra literária de Leda Maria de Albuquerque.

            Nesta edição, contamos ainda com dois textos de criação que muito contribuem para as reflexões aqui mencionadas. Em “Engraçado pensar…” e “Excalibur”, da autora Beatriz Jobim Pérez Senra, temos uma espécie de experimentação com a linguagem, em que as palavras se agrupam no espaço do papel conforme o assunto ali tratado ecoa no mundo. Ambos os textos refletem sobre o processo da escrita e sobre o tempo, acerca de como esses assuntos são tratados na atualidade. Os poemas “Cinzas e ruínas” e “Homo Sapiens Contemporâneo”, de Patrícia de Paula Aniceto, seguem a mesma temática e traz reflexões sobre a nossa relação com a memória hoje. Diante da riqueza de textos que participam da construção de uma edição importante sobre uma literatura da diversidade, a comissão editorial da revista agradece a participação de autores dispostos a promover debates que reforcem a necessidade de se desenvolver um “pensamento do tremor”.

Darandina Revisteletrônica