UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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A atual situação sócio-política de expansão do conservadorismo e de implementação de medidas autoritárias por parte de governos ao redor do globo, sob justificativa de manutenção da ordem e da segurança, tem gerado preocupação. Diversos países têm se defrontado com o aumento de práticas de controle e de projetos de exclusão de grupos de pessoas consideradas indesejáveis, eleitas como inimigas. Cada vez mais, na contemporaneidade, vemos se realizar o estado de exceção como paradigma de governo, conforme alertou Giorgio Agamben (2004) ainda no início do século. A fim de refletirmos sobre a complexidade do momento presente, nós, da Darandina Revisteletrônica, lançamos esta edição, intitulada “Literatura em tempos de exceção”, especial para o aniversário de dez anos da revista, mesmo que os motivos para se comemorar não sejam muitos diante dos prospectos para a sociedade brasileira.

Na América Latina e nos Estados Unidos, há um processo de demonização de movimentos sociais e de lideranças populares, bem como da esquerda política. A criminalização da pobreza e o encarceramento em massa servem aos ideais neoliberais, uma vez que “não pode haver obstáculos para os fins do mercado e a busca do lucro, o que faz com que o Estado precise atuar no controle e na exclusão de indivíduos ou grupos ‘perigosos’” (CASARA, 2017, p. 187), garantindo a livre circulação de mercadorias e de capital e, consequentemente, do consumo. Não havendo distinções entre o poder econômico e o poder político, tamanha a capacidade de coação exercida pelo primeiro sobre o último, interessa ao Estado gerar lucros e possibilitar que o capital seja acumulado pelas classes mais altas, transformando tudo – e todos – em mercadoria.

Segundo Pedro Serrano (2017), sociedades com altos níveis de desigualdade social e econômica geram mais violência, de forma que o controle dos pobres e marginalizados e a segregação se fazem necessários. Instaura-se, nesse sentido, uma cultura do medo que passa a vender a segurança como um bem precioso e um governo rígido começa a ser visto, pelo cidadão médio, como uma solução para assegurar que a população esteja protegida dos “monstros” – nessa cultura, aqueles que cometem crimes são destituídos de sua humanidade e precisam ser severamente punidos, ideal refletido na expressão popular “bandido bom é bandido morto”.

Se, no Brasil dos anos 1960, grande parte da população enxergava os militares como salvadores da nação, hoje, o papel de herói é atribuído aos juízes, os quais se encontram acima da moral e da própria lei em sua caçada contra os corruptos – ainda que o heroísmo do exército se mantenha também no imaginário social, conforme foi possível notar nos recentes clamores por intervenção militar manifestados na ocasião da greve dos caminhoneiros. O professor Pedro Serrano lembra que o cidadão médio, discursando sobre o fim da corrupção, “quer a ordem e, sobretudo, a extinção dos conflitos sociais e políticos” (2017, s/p), não importando que, para isso, o próprio Sistema de Justiça seja corrompido e se transforme em espetáculo.

Sobre o período do regime militar brasileiro, que se iniciou em 1964, surge uma literatura consistente, carregada da violência e da repressão que se fizeram presentes no cotidiano da época. O artigo “Memória e esquecimento no pós-guerra”, de Roberta Saçço, aborda o paradoxo que toma a sociedade a partir da segunda metade do século XX, dividida entre a memória traumática e o esquecimento do Holocausto e das ditaduras latino-americanas, sobre as quais se proliferam o testemunho ao mesmo tempo em que se empreende um esforço pelo apagamento dessas lembranças.

No texto “A crônica ‘Domingo na praça’ de Ricardo Ramos: consciência literária sobre a experiência histórica”, de Edinaldo Flauzino de Matos, o gênero literário da crônica é abordado em suas peculiaridades é analisado em relação aos aspectos contextuais do período em que foi escrito “Domingo na praça”, de Ricardo Ramos, durante a transição da ditadura para o regime democrático brasileiro, levantando o debate sobre como é possível observar a consciência histórica do cronista nas entrelinhas de sua obra.

O artigo “Literatura em tempos autoritários: uma análise do conto ‘Recordações do casarão’, de Bernardo Kucinski”, de Suzeli Santos Santana, traz um estudo do conto de Kucinski publicado em 2014, quase trinta anos após a redemocratização no Brasil, no qual o autor resgata uma memória da ditadura e dos traumas vividos à época.

Em “Pompéia ou o real por subtração: três poemas de Paulo Henriques Britto em análise”, de Fernando Ulisses Mendonça Serafim, discute-se como a poesia de Britto, bem como as estratégias de sua linguagem poética, oscilando entre a expressão e a interrupção, podem dialogar com a frágil e recente democracia brasileira.

A resenha Ceci n’est pas un canon: o outro na literatura”, de Nícollas Cayann, aborda o livro Leituras a contrapelo da narrativa brasileira: redes intertextuais de gênero, raça e sexualidade (2017), de autoria de Anselmo Alás, no qual levanta-se a questão da alteridade presente na literatura brasileira em suas múltiplas nuances, lançando mão de possibilidades de análise a partir das teorias de gênero, raça e sexualidade, bem como da Teoria Queer.

Também com relação ao estranhamento enfrentado por pessoas que fogem às normas, especificamente às normas de gênero, a resenha “A dor do compasso de todas as rimas”, de Luiz Henrique Moreira Soares e Adenize Aparecida Franco, sobre o livro Antologia trans, que reúne trinta poetas transgêneros/as, oferece um vislumbre da dor e da resistência de pessoas trans, travestis e não-bináries que expõem suas complexas subjetividades em poemas, microcontos e ilustrações.

Embora o discurso político ainda evoque a democracia, não existe mais a pretensão de se fazer cumprir os limites legais colocados pela Constituição ao exercício do poder, de forma que a violação a direitos fundamentais se torna recorrente. Conforme alerta Judith Butler, “[p]arte do problema da vida política contemporânea é que nem todo mundo conta como sujeito” (2016, p. 54) e são justamente os não-sujeitos os alvos preferenciais desse estado de exceção permanente.

Nos Estados Unidos, uma série de medidas autoritárias foram tomadas em resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001, legitimadas sob o manto de uma política de combate ao terrorismo que até hoje atinge e limita diretamente liberdades individuais. Essa justificativa foi usada ainda para a invasão militar do Afeganistão e do Iraque e, ao longo do processo dessa “Guerra ao Terror” decretada por George W. Bush, milhares de vidas civis foram descartadas em nome de um “bem maior”. Este, na verdade, foi apenas um dos capítulos da história mundial que afetaram o Oriente Médio, região na qual paira uma tensão permanente.

No artigo “O Oriente Médio ‘civilizado’: romance de formação e resistência no século XXI”, Pedro de Freitas Damasceno da Rocha trata da temática árabe representada no romance de formação The Tobacco Keeper (2011), escrito pelo iraquiano Ali Bader, que mescla história e ficção ao relatar a trajetória de um músico que vive em Bagdá. Ao narrar os acontecimentos mais marcantes para a região do Oriente Médio desde o fim do Império Turco-Otomano, passando pelas guerras mundiais até os conflitos deste século XXI, Bader mostra como as transformações de povos e de territórios afetam o individual e suas possibilidades de resistência diante da exceção que se repete sucessivamente.

A ficção vem, há tempos, alertando para os riscos de se apoiar autoritarismos e um número considerável de obras foram e vêm sendo (re)produzidas sobre períodos de exceção, algumas delas oferecendo previsões assustadoramente reais e próximas, como o faz a distopia The Handmaid’s Tale (1985), de Margaret Atwood, abordada em “Vozes sociais e relações de poder em The Handmaid’s Tale”, de Relines Rufino de Abreu, artigo que, à luz dos acontecimentos contemporâneos, reflete sobre os grupos sociais apresentados no romance e sobre como se dão as relações de poder na sociedade de Gilead.

No artigo em língua inglesa “Language and control – Glossopesis in Orwell’s Nineteen Eighty-Four and Elgin’s Native Tongue”, de Israel A. C. Noletto e Sebastião A. T. Lopes, duas importantes ficções distópicas são analisadas a partir da criação de novas linguagens como dispositivos narrativos, de forma que a intrínseca relação entre língua e controle é debatida para se apontar as similaridades nos pensamentos e processos de escrita dos autores George Orwell e Suzette Haden Elgin.

O romance de Orwell é também tratado no texto “O totalitarismo orwelliano e o poder da propaganda”, de Érica Fernandes Alves e Marisa Corrêa Silva, que levantam a temática do poder exercido pela propaganda totalitária na obra, além de analisar a escrita política do autor e como ela foi transformada em linguagem literária.

Não estando livre das ameaças autoritárias, a Europa ainda se debate com os fantasmas de ditaduras intensas, como a de António Salazar, iniciada em Portugal durante a onda totalitária que tomou o continente na primeira metade do século XX – e que até os dias atuais encontra apoiadores. O artigo “As memórias e a história do ano da morte de Ricardo Reis”, de Amanda L. Jacobsen de Oliveira e Juliana Prestes de Oliveira, retoma a obra de José Saramago ambientada em Lisboa, no ano de 1936, quando Ricardo Reis (um dos heterônimos de Fernando Pessoa) retorna a Portugal e se depara não apenas com a ditadura salazarista, mas também com a expansão nazista e a iminência da Segunda Guerra Mundial e com a Frente Popular assumindo o poder na Espanha (levando a uma guerra civil) e na França. O personagem, então, se vê em meio a um caos bastante real, nessa obra que mescla elementos ficcionais e históricos.

O longo período em que Salazar esteve no governo é também tema abordado pelo texto “Uma leitura de ‘Carta a Garcia’, de José Cardoso Pires”, de Mauro Dunder, que analisa um conto publicado durante o regime ditatorial, a fim de apontar as estratégias textuais que possibilitaram ao autor construir uma obra crítica da atuação militar mesmo dentro de um contexto de repressão intensa.

Por fim, esta edição conta ainda com a resenha em língua inglesa “Oh, look at all the lonely people: Eleanor Oliphant is Completely Fine by Gail Honeyman review”, de Marcela Santos Brigida, que apresenta o premiado romance Eleanor Oliphant is Completely Fine (2018), sobre uma protagonista que teve seu caráter moldado por um passado difícil, o qual se reflete em sua vida ordinária e aparentemente feliz, apesar da solidão e das memórias obscuras.

A comissão editorial da revista agradece imensamente pelas contribuições e, nestes 10 anos de existência, estende suas congratulações a todos/as os/as bolsistas que trabalharam para seu sucesso. Diante do projeto de sucateamento do ensino superior e da pesquisa, desejamos que a Darandina Revisteletrônica não apenas sobreviva, mas tenha vida longa pelas nossas mãos, como alunos, bolsistas e pesquisadores que somos.

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2004.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

CASARA, Rubens R. R. Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

SERRANO, Pedro. Sob o manto da democracia produzem-se medidas de exceção. Carta Capital. Entrevista concedida a Sergio Lirio. 16 ago. de 2017. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/revista/965/sob-o-manto-da-democracia-produzem-se-medidas-de-excecao>. Acesso em: 04 jul. de 2018.

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