UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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O fascismo, palavra cujo uso se tornou corrente nos últimos anos, pode assumir várias formas e incorporar inclusive as reações que querem combatê-lo, como, de alguma forma, sempre se soube. O que surpreende, talvez, é a velocidade e a uniformidade com que certas mudanças no cenário político nacional e internacional se orquestraram a partir dos últimos cinco anos, trazendo novamente à baila reflexões sobre fatos que muitos de nós considerávamos superados.

O relativismo de todos os conceitos, ponto importante e definitivo no caminho necessário trilhado rumo à compreensão da diferença, trouxe consigo um perigoso efeito colateral, a saber: sua própria banalização e uso perverso pelos que jamais tiveram como interesse a empatia com a diferença, mas cuja meta sempre foi a relativização da barbárie, dos sucessivos golpes de Estado, do rapto dos direitos, da opressão e da escravização de corpos e do lucro a partir da miséria alheia.

Uma vez sequestrada, a relativização permite aos grupos sempre hegemônicos confundir e deslocar boa parte de pós-conceitos sobre ideologias e crimes que não deveriam voltar, ou, pior, cujas justificativas já desmontadas pelas reflexões sobre as tragédias do passado não deveriam levantar dúvidas sobre o caráter de seu retorno. Entretanto, o que ocorre, espantosamente, é que assistimos atônitos à volta de todos os zumbis enfurecidos, estimulados pelo alcance das redes sociais e de seu próprio poder de tornar audíveis e democráticas todas as postulações ali formuladas, que propiciam ao absurdo pseudo-teórico a possibilidade da fama  em 500 curtidas e 50 compartilhamentos.

O resultado na vida prática disso é que assistimos, estarrecidos e impassíveis, à construção de muros e à formação de ilhas como forma ou justificativa de contenção de violência. Há algum tempo estivemos em crise, em estado crítico, acomodando diferenças em projetos hegemônicos, o que, de qualquer forma, esteve embutido ou implícito em nossas organizações políticas a partir do século XIX. Entretanto, o que assusta hoje, após o questionamento das fronteiras, sejam elas do Estado-nação ou as fronteiras das questões de gênero ou raça, são  os infelizes e últimos acontecimentos no campo mundial que apareceram como uma chuva de meteoros brilhantes e destrutivos  a partir  do início deste  século.

 Assim,  os desdobramentos catastróficos da imigração na Europa e os atentados terroristas,  a  nova onda xenofóbica na França, as guerrilhas de intolerância no Sudão, os atentados e explosões de seres humanos na Nigéria,  o massacre continuado do potencial das mulheres no Afeganistão, o fechamento da imprensa na Eritreia, o genocídio continuado na faixa de Gaza, o declínio da primavera árabe, a volta dos ditadores que nunca se foram em tantos países do Oriente médio, a repressão à diferença em qualquer parte do mundo, os escândalos do assédio sexual hollywoodiano, a marcha racista e neonazista em Charlottesville, a passagem de centenas de venezuelanos pela fronteira de Roraima e os lamentáveis golpes que viveram e vivem jovens democracias da América Latina, como o Brasil, além da morte também simbólica de inúmeras Marielles, só confirmam o que, de algum modo, sempre soubemos: somos profundamente incompetentes na arte de lidar com a alteridade. 

            É nesse contexto que surgem os ditadores e os que apostam no fim da democracia como via mais segura, capaz de banir a diferença e a insegurança que me fazem tremer e ter que me posicionar continuamente diante de quem é diferente de mim. É mais fácil declarar estado de emergência, crise, estado de alerta, e chamar a intervenção militar para me proteger daquilo em que não quero ter que pensar; e será no vácuo do medo e do pânico causados pela insegurança diante do que desconheço que todas as bruxas e todos os bruxos serão queimados continuamente, e todos os livros e o conhecimento do bem e do mal alimentarão a pira trágica de onde a fumaça, triunfante, nos manterá em permanente estado de estupor.

            Os artigos do presente número são um convite a um passeio através da fumaça e a uma reflexão sobre testemunhos e narrativas capazes de nos fazerem pensar sobre o uso da fumaça em tempos sombrios, e de como a linguagem pode  resistir ou dar as mãos aos governos e à implementação de estados de exceção.

            Diante da dificuldade em acomodar as diferenças, o apelo à suspensão do Estado Democrático de Direito tem sido corrente em tempos atuais. Nesse sentido, o medo e a identificação de um inimigo comum são as ferramentas que tornam  aceitáveis e, por que não desejáveis, atitudes  e ações excepcionais que nunca poderiam ser aceitas em situações de normalidade.

Oficializado, o discurso do medo passa a servir como estratégia definitiva a governos que precisam se impor, porque jamais seriam eleitos pela vontade da maioria, e o agente protetor de atrocidades passa a ser meu  próximo – no sentido bíblico – aquele que mora ao lado, o que encontro pelo caminho, o que partilhou comigo o pão um dia, meu vizinho, meu irmão.

  A partir deste ponto, os limites são estabelecidos de forma clara aos outros-de-mim que são ameaça à ordem e ao progresso desejados,  e a perseguição àqueles que, de alguma forma, nunca se encaixaram na narrativa hegemônica ganha o patamar e o status de necessária à proteção dos  chamados cidadãos de bem, enquanto, na realidade, serve à manutenção do poder muitas vezes ilegítimo de líderes políticos postiços.

O que vemos, nas ultimas décadas, é o triste espetáculo do  velho sacrifício de todos os bodes expiatórios e a suspensão de direitos, condenação midiática e espetacularização de julgamentos tendenciosos, para dizer o mínimo. Este, por outro lado,  parece ter se tornado o caminho mais fácil para que eu me livre de meu inimigo, ou daquele cujo discurso não me agrada: ter seu nome pregado na parede de todos os corredores da mídia e em todas as redes sociais; repetir mil vezes seu pecado e obter sua condenação antes de seu julgamento. Fim do Estado de Direito, porque o modelo parece ter agradado também a boa parte dos que deveriam lutar contra o princípio fascista de condenar sem julgamento.

A ponte que nos leva ao outro, como apontou Mário de Sá-Carneiro nos célebres versos  “ lugar da ponte de tédio/ que vai de mim para o outro”,  é a ponte daquilo que o poeta definiu como tédio, porque o encontro não é  maravilhosamente fácil, e acontece em uma  ponte em que andamos sempre pisando em ovos.

 A construção da ponte é todavia tarefa da universidade, que, em seu caráter de Universitas, tem a missão de abrigar em seus muros abertos as pontes que podem nos conectar à diversidade das ideias, sempre libertadora, e, nos dias de hoje, necessária em uma instituição de ensino que pode oferecer novas formas de contenção de desastres: pelo pensamento, pelo estudo da diferença, pela cooperação em pesquisa, pela descoberta de outros modos de entender o mundo, e não pela violência ou pela supressão de um modelo em detrimento de outro. É desta ponte trêmula que lemos os artigos que se apresentam nesta revista, como quem pisa com cuidado sobre outras e possíveis realidades…

Profª. Drª. Bárbara Simões Daibert

(Professora de literatura na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora)

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