UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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As histórias em quadrinhos (HQs) têm despertado cada vez mais interesse dos pesquisadores no campo dos estudos literários. É incontestável o aumento de estudos voltados para a arte sequencial, cada um deles abrindo caminhos para as mais variadas possibilidades de análise. Nós, da comissão editorial, temos imensa satisfação em apresentar esta edição, que abarca diversos olhares sobre os quadrinhos, seja por seu conteúdo estético, cultural, social, seja pelos diálogos com a literatura. Na 20ª edição da Darandina Revisteletrônica, propomos o tema Literatura e Quadrinhos: diálogos possíveis, permitindo envolventes conexões.

Alguns dos textos aqui presentes abordam as conexões eixstentes entre quadrinhos e literatura do ponto de vista da adaptação e da tradução intersemiótica. “Lovecraft em quadrinhos: ‘A cidade sem nome’ por Alberto Breccia”, de Natalia Andrea Gavotti (UNESPAR/EMBAP) e Fabricio Vaz Nunes (UNESPAR/EMBAP), trata da transposição dos contos de H. P. Lovecraft para os quadrinhos feitas pelo quadrinista uruguaio-argentino Alberto Breccia.

Simone Paula Marques Tinti (UNIFESP), em “Recriação de uma obra literária: Dois irmãos em HQ”, trata da adaptação para quadrinhos da obra de Milton Hatoum feita pelos quadrinhistas brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá.

As adaptações de obras literárias para os quadrinhos também aparecem na temática de artigos como “O teatro de Nelson Rodrigues em HQ: A quadrinização de Vestido de noiva”, de Débora Almeida de Oliveira (UFRGS), que trata da adaptação para o formato de quadrinhos da peça de Nelson Rodriges feita por Arnaldo Branco e Gabriel Góes.

A obra de Nelson Rodrigues adaptada para quadrinhos, sob o viés da tradução intersemiótica, também é tratada no artigo “Vestido de noiva: Quadrinhos e tradução intersemiótica”, de Jair Paulo Siqueira (UFSC) e Alinne Balduino P. Fernandes (UFSC).

A obra Maus, de Art Spiegelman, também foi abordada em diversos dos artigos de nossa vigésima edição. Lucas Fazola Miguel (UFJF), em “Autobiografia e autoficção em Maus, de Art Spiegelman”, trata desse romance gráfico que é um dos mais emblemáticos títulos dos quadrinhos do século XX, sob a perspectiva dos estudos da escrita de si.

Ganhador do prêmio Pulitzer em 1992 – e um dos responsáveis por colocar os quadrinhos na mira dos estudos literários –, ainda é abordado em “O paradigma proposto por Maus: Lembrar ou esquecer o Holocausto?”, de Ânderson Martins Pereira (UFRGS) e Ariane Avila Neto de Farias (FURG). Nesse texto, os autores abordam o romance gráfico de Spiegelman sob a perspectiva do “lembrar” e do “esquecer” na narrativa, tratando da questão das fronteiras entre literatura e história presentes na obra.

Já no artigo de Cátia Ana Baldoino da Silva (UFG), “Duas formas de testemunho em Art Spiegelman: Análise das graphic novels Maus e À sombra das torres ausentes”, a obra é abordada pelo viés testemunhal, bem como um segundo título de autoria de Spiegelman que trata do atentado às Torres Gêmeas de 2001.

A historização da ficção e a ficcionalização da história são o foco do artigo “História na estória ou estória na história? A inferência do acontecimento factual no universo ficcional das tirinhas de Armandinho”, de Marcos Antonio Corbari e Denise Almeida Silva (UFRGS). Os autores discorrem sobre a representação de um fato histórico recente na história brasileira (a reforma do Ensino Médio proposto pelo governo de Michel Temer) tal qual abordado nas tirinhas do personagem Armandinho, de Alexandre Beck.

O artigo “O despertar de Finnegan: James Joyce e a leitura dos quadrinhos”, de José Arlei Cardoso (UNISC), por sua vez, busca analisar o processo criativo e referencial de James Joyce através da narrativa em quadrinhos, analisando obras como Skreemer e Dotter of her Father’s Eyes.

A adaptação de obras literárias, entretanto, não é o único meio pelo qual as HQs e a literatura dialogam. Alguns dos artigos presentes em nossa edição abordam outras interpretações que permitem estudá-los em perspectiva comparativa. A intersecção e sobreposição entre texto e imagem na construção dos significados nas tramas em quadrinhos é o tema do artigo “Reflexões acerca do diálogo entre texto e imagem na construção da narrativa em quadrinhos: Uma análise do capítulo ‘Sonho de uma noite de verão’, de Sandman”, de Maiara Alvim de Almeida (UFJF/IFRJ), que tece considerações sobre esta temática ao longo de sua análise de um capítulo da obra de Neil Gaiman.

“Histórias em quadrinhos: Panorama histórico, características e verbo-visualidade”, de Glayci Kelli Reis da Silva Xavier (UFF/CPII), também discorre sobre os diálogos entre imagem e texto, abordando a questão da verbo-visualidade presente nos quadrinhos.

Em “A semiótica em Capitão América: Uma análise da primeira HQ do personagem”, Stefanny Oliveira (Universidade Estadual do Pará) e Rosana do Vale (Universidade Estadual do Pará) verificam como o quadrinho Captain America Comics foi utilizado como arma ideológica durante a Segunda Guerra Mundial.

Já em “Os quadrinhos e a vida: O problema da qualidade literária ao final dos 1970”, Alexandre Linck Vargas (UNISUL) propõe-se a analisar três episódios, inicialmente sem conexão, ocorridos na década de 1970, que viriam a redefinir as relações entre as duas artes.

O artigo de Attila Piovesan (UFES), “Escatologia e presentismo em Os Invisíveis de Grant Morrison”, investiga a complexa série em quadrinhos Os Invisíveis, escrita por Grant Morrison, a partir do imaginário caótico instalado na contemporaneidade e da sensação de eterno presente.

O diálogo entre a cultura popular, em que se inserem os quadrinhos de super-heróis, e os romances contemporâneos também é abordado em alguns dos textos desta edição, como no caso de “A utilização dos X-Men como identidade gay no livro No presente, de Márcio El-Jaick”, de  José Vilian Mangueira (UEPB), que analisa o papel das menções aos mutantes da Marvel no romance O presente, tentando entender o significado que tais personagens teriam para o narrador/personagem e para seu processo de autoconhecimento.

Já a construção da identidade da mulher moderna no contexto da cultura de massa é tratada no artigo “Modernidade e emancipação feminina nas tirinhas de Pagu”, de Jéssica Antunes Ferrara (UFJF).

Nesta edição da Darandina Revisteletrônica também contamos com textos de criação, como o poema “Eis então”, de Ayana Moreira Dias (UFF), o conto “A memória das ruínas”, de Davi Alexandre Tomm (UFRGS), e os poemas de Pércio Faria Rios, bem como os “Versos de livramentos”, de Jéssica de Freitas Lopes.

Além disso, contamos também com resenhas, como a feita por Irma Caputo (PUC – Rio), para o livro Estranheirismo, de Zack Magiezi, publicado em 2016. Também contamos com a resenha de Douglas Rosa da Silva (UFRGS) do livro Ao pé do ouvido, de Alice Sant’Anna, também lançado em 2016.

Finalizamos agradecendo, em nome da comissão editorial da revista, a contribuição de autores empenhados em promover debates sobre o tema, e por dividirem em nossa revista conhecimentos sobre um assunto tão crescente e relevante para os estudos literários.

 

Darandina Revisteletrônica