UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Há um momento, no início da década de 1970, em que as Histórias em quadrinhos passam a ser percebidas como algo mais do que baixa cultura. Uma das radiografias desse período é o livro de Umberto Eco Apocalípticos e integrados. O termo “integrado” é aplicado àqueles intelectuais interessados no valor das expressões da cultura de massa, o próprio Eco escrevendo sobre as tiras de Milton Caniff, o mito do Superman, vendo nos quadrinhos de Charlie Brown “as monstruosas reduções infantis de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industrial”.

Um dos primeiros quadrinistas a se beneficiar desse momento, Will Eisner argumenta que a Exposição no Louvre em 1967, exibindo a arte original dos artistas da Era de Ouro, teve um efeito “embriagante sobre a auto-estima dos cartunistas”. Essa abertura do mundo “das artes estabelecidas” (nas palavras de Eisner) para as Histórias em quadrinhos foi antecipada por alguns artistas da Pop Art, como Roy Lichtenstein.

Eisner aponta ainda outro marco, “a grande ruptura que possibilitou aos quadrinhos elevar-se ao nível da literatura”, segundo ele, “os gibis undergrounds da década de 60”, desafiando “o sistema com uma arma literária poderosa e acessível, os quadrinhos eram usados para protesto político, declarações pessoais, provocação social e expressão sexual”.

Hoje podemos perceber esses acontecimentos como parte da abertura de pensamento e atitude provocada pela Contracultura dos anos de 1960. Após isso, no universo dos gibis, começou a surgir um novo tipo de História em quadrinhos, a graphic novel – do qual o próprio Eisner é considerado pioneiro e mestre. Segundo ele, artistas e escritores como Robert Crumb, Julles Feiffer e Art Spiegelman criaram um novo tipo de “vanguarda literária”. Em minha dissertação de Mestrado – intitulada Isto está no gibi: elementos para uma análise literária das histórias em quadrinhos (2000) – defendi que a ideia de Eisner de que os quadrinhos precisam se “elevar” ao nível da literatura baseava-se em um princípio legitimista conservador. Além disso, predominantemente os romances gráficos são realistas na construção do enredo e na figuração da arte. E isto é bem contraditório quando considerados como um tipo de “vanguarda”, já que em tese a arte de vanguarda é anti-realista.

Agora, com a ascensão das graphic novels é exigida uma abordagem mais ampla e profunda, principalmente para se compreender as formas de narrativas ficcionais na nossa contemporaneidade. Os artigos reunidos nesta edição da Revista Darandina não só atendem a esse propósito, como nos convidam a refletir sobre um fenômeno que há décadas os estudos literários e a teoria da literatura não o consideram com a devida atenção. O fenômeno existe e é relevante como fato literário.

Prof. Dr. Anderson Pires da Silva

(Professor de Literatura na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora)

 

 

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