UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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OS NOVOS SUJEITOS HÍBRIDOS E OS DESAFIOS DA CRÍTICA CONTEMPORÂNEA

O tema Identidade tem mobilizado significativo elenco de pensadores nos diversos campos do conhecimento. Mesmo com as óbvias diferenças de objetivos, de objetos e de metodologias, os trabalhos recentes têm registrado certa convergência no que diz respeito à efetuação do desmonte das perspectivas que consideram a ideia de uma identidade integral, originária e unificada. São exemplos: a crítica do sujeito autossustentável, centro da metafísica ocidental pós-cartesiana, na filosofia, e os processos inconscientes de formação das subjetividades, nos discursos da crítica feminista e da crítica cultural, influenciados pela psicanálise.

No entanto, é diante da escalada dos pressupostos da globalização que o fortalecimento da crítica antiessencialista das concepções étnicas, raciais e nacionais de identidade cultural vem construindo algumas das concepções teóricas mais imaginativas e radicais sobre a questão das subjetividades e das identidades (HALL, 2014, p. 103).

A concepção de identidade essencialista remonta aos esforços do programa cultural do Iluminismo, como primado do sujeito. Sua insistência na afirmação de uma trajetória pessoal faz lembrar as certezas advindas do patrimônio adquirido na trajetória do indivíduo unificado, para quem as subjetividades são submetidas às faculdades da razão e da consciência, motivadoras das capacidades de ação. Assim, a “pessoa humana”, totalmente centrada, estava destinada a empreender um irremediável desenvolvimento, ainda que permanecesse essencialmente a mesma, desde o seu nascimento. Como nos lembra Stuart Hall: “O centro essencial do ‘eu’ era a identidade de uma pessoa” (HALL, 2015, p. 11).

Ocorre, no entanto, que a crença num “eu” uno e indiviso sofreu grande abalo com a crescente complexidade do chamado “mundo moderno”. A “formação do indivíduo” passou a depender de intrincadas relações com mediadores de sentidos e de valoração. A identidade já não era mais decorrente de uma trajetória linear e teleológica, mas, antes, da “interação” entre o “eu” e a “cultura”.  Desse modo, as ilusões de autonomia e autossoficiência do sujeito do Iluminismo ruíram paulatinamente diante das “alteridades” culturais, forjando identidades cada vez mais dialógicas. O antigo sujeito viu-se, portanto, impelido a buscar nos escaninhos estanques das estruturas sócio-culturais, oferecidos como alternativas pouco flexíveis, os elementos de sua estabilização nos assim chamados “padrões” de sócio-cultura.

Se pensarmos no aparecimento das formulações de Freud e da Psicanálise, em fins do século XIX, teremos um referencial seguro para situarmos o momento em que o rico material do sujeito da interioridade, nascido da experiência iluminista, foi fortemente confrontado pela sua própria negação. A radicalização do capitalismo tecnicista impôs aos processos de identificação os seus valores provisórios, frágeis, efêmeros. As certezas do que éramos, outrora ancoradas nos alicerces sólidos da razão, foram sendo demolidas sem remissão, umas após outras, deixando aos sujeitos opções mais largas, mais livres, em contrapartida, menos seguras. Recorrendo ao mesmo Freud, compreenderemos que é a segurança, uma necessidade intrínseca do humano, a razão para a rejeição aos “hibridismos”.  

Contudo, as diversas perspectivas teóricas que tomam a contemporaneidade como seu cenário preferencial incorporaram definitivamente os hibridismos, adicionaram a eles os elementos da sociedade espetacular e assumiram, com muitas variações, a existência de um “eu” inevitavelmente “performativo”. Em nosso muito modesto entendimento, reside nesse ponto específico da abordagem do sujeito um explosivo embate em curso, pois seus contornos envolvem os cenários da ameaça de uniformização, confirmados na cada vez mais hegemônica presença do consórcio neoliberalismo-globalização. Sua decorrência residual, uma espécie de efeito colateral, entretanto, foi deslocada da condição de contingência e tomou o centro da cena, encarnando-se no que Lipovetsky denominou de “personalismo” (LIPOVETSKY, 2014, p. 41). O “personalismo” tem assumido características do mais absoluto narcisismo, quando, hoje, a vida real é convocada a “performar” e a ficção do mundo pessoal – as invenções de histórias pessoais que tornam vidas medíocres em narrativas interessantes – se sobrepõe aos confrontos necessários ao fortalecimento das interações com as alteridades. As identidades são, contemporaneamente, construções imaginárias “que se narram”. Em outras palavras, as subjetividades contemporâneas são compostas basicamente de visibilidade e de conexão, um contexto no qual os elementos da introspecção foram deslocados para as tarefas da exteriorização de um “eu” compósito. O sujeito performático da contemporaneidade precisa de “testemunhas”, precisa ter sempre alguém olhando para ele. No dizer de David Riesman, cada vez mais nos configuramos como personagens alterdirigidos: “As fronteiras para o homem alterdirigido são as pessoas; ele tem a mentalidade dirigida para as pessoas (people-minded)” (RIESMAN, 1995, p. 192). Com isso, deixamos de considerar a “vida interior” como algo que define o verdadeiro ser, para adotarmos uma verdade exterior, cada vez mais centrada nas aparências. Nada mais presente do que a máxima “ser é cada vez mais parecer ser”. As identidades contemporâneas podem ser compradas em shoppings e montadas a partir dos desejos individuais. A aceitação pelo “outro” é menos complexa, uma vez que atenuada por uma lógica de identificação tribal, na qual os iguais se identificam entre iguais e as “diferenças” são evitadas por contratos de “seleção das afinidades”. Condomínios fechados, bancos “personalité”, “prime”, grupos fechados em redes sociais, escolas exclusivas, estudos sobre perfis de consumo, toda uma rede de busca de “fidelizações” norteiam as buscas pelas “identificações”, atestam os novos modos “performáticos” de ser e de estar no mundo. O bombardeio das informações em profusão reclama nossa necessidade de despi-las para melhor reelaboramos uma compreensão dos seus poderes de contaminação.

No entanto, será preciso sempre reconhecer que é nos encontros entre diferentes culturas que os processos homogeneizadores, escudados pela força do seu exército bem remunerado de propagadores, sempre apresentam suas melhores armas. Tal como a memória que cultiva mecanismos para afastar das lembranças dolorosas a restauração do seu potencial de reviver a intensidade do sofrimento original, os processos homogeneizadores tentam apagar os rastros, os resíduos das culturas “indesejadas”. Os movimentos de “empoderamento” feminino, as afirmações de negritude, de crioulização são alguns exemplos de enfrentamentos dos processos de “naturalização” que os movimentos homogeneizadores intentam sufocar. Obviamente, as forças das “reações” tendem a ser proporcionais à fundura nas rachaduras das estruturas de dominação. Se ausente estiver o conflito, mais prova-se a eficácia do poder “naturalizador”, pois, será preciso reconhecer: os demônios dos fascismos só ficam aprisionados enquanto as demandas dos considerados “subalternos” não ameaçam as ordens hegemônicas. Quando as demandas “incômodas” emergem, estabelece-se o pânico nas ordens hierarquizadas, uma vez que sua sustentação não tem legitimidade senão numa convenção acordada com a inércia.

Para um teórico como Glissant, por exemplo, as trocas culturais, marcas indeléveis deste nosso tempo, não apenas modificam as culturas. Mais do que isso, elas criam registros culturais inéditos. No ineditismo das criações de identidade estaria, de acordo com a sua avaliação, a explicação para a origem dos conflitos de natureza diversa verificados no mundo contemporâneo. As identidades, ainda segundo Glissant, não podem mais ser relacionadas com a imagem da raiz. Seriam, antes, rizomas, as imagens mais precisas para defini-las, ou seja, raiz indo ao encontro de outras raízes. Daí porque ele prefere o termo “crioulização” ao termo “mestiçagem”. A “mestiçagem”, segundo ele, não alcançaria os resultados da hibridização responsável pela criação de novas realidades identitárias mundo afora. Em suas palavras, “esses velhos demônios da pureza e da antimestiçagem resistem e inflamam esses focos infernais que vemos queimar na superfície da terra” (GLISSANT, 2005, p. 21).

As narrativas totalizadoras das identidades só respondem hoje aos apelos dos fundamentalismos, da xenofobia e das muitas faces dos fascismos redivivos de tempos em tempos.

Prof. Dr. Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira

(Professor de Literatura na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund. Obras Completas – Volume 18 – O Mal-estar na civilização, Novas conferências introdutórias à Psicanálise e outros textos (1930 – 1936). Trad. Paulo César de Souza.  São Paulo: Companhia das letras, 2010.

GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce do Carmo Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2005.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Trad. Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria. Lisboa: Ed.70, 2014.

RIESMAN, David. A Multidão solitária. Trad. Rosa Krauz e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1995.

SIBILIA, Paula. O Show do Eu – A intimidade como espetáculo. Rio de janeiro: Contraponto, 2016.

SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org). Stuart Hall, Kathryn Woodward. Identidade e Diferença – a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

 

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