UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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A canção nas Letras

 

A variedade de temas, a diversidade de origens e a qualidade dos artigos reunidos neste número da Darandina Revisteletrônica são bons indícios de que os estudos sobre canção nas faculdades de letras do país já estão bem estabelecidos e fixados. O leitor poderá conferir, através da série de textos aqui publicada, como são poucos os que ainda se alongam nas antigas escusas e nas justificativas teóricas, muitas vezes enviesadas, para garantir a apresentação de um trabalho, na área de Estudos Literários, que não verse sobre a literatura stricto sensu. Nesse sentido, tais trabalhos forçam um deslocamento do conceito de literatura em relação à sua especificidade, hegemônica, que é a da realização verbal escrita, impressa, veiculada em páginas de papel.

Pensar essa modalidade da arte da palavra como exclusiva é mesmo fechar os olhos para a larga tradição literária em que predominaram ou a palavra cantada (seja a dos trovadores medievais ou dos repentistas nordestinos), ou a palavra falada, hoje rediviva em saraus que se espalham pelas cidades brasileiras (haja vista o sucesso do ECO – Performances Poéticas, apenas para citar um evento daqui de Juiz de Fora). Mas definir literatura apenas a partir dessa forma que descrevemos como hegemônica é também não estar atento para os novos suportes de difusão do texto poético, como o filme, o vídeo, o computador, o CD, cujos formatos, inevitavelmente, interferem em vários aspectos, desde a produção à recepção do texto literário. Isso é visível na fatura do texto, no método de arquivamento e acessibilidade dos dados (consequentemente na memória da literatura), na natureza da leitura (mais hipertextual e em regime de superfície). Esses são alguns dos aspectos que forçosamente convocam o pensamento teórico a redefinir literatura, em busca de um conceito mais amplo e maleável, a fim de contemplar os diferentes objetos da arte da palavra.

No Brasil, por outro lado, tentar situar o estudo da canção no âmbito mais amplo de certa pesquisa acadêmica – no “vale-tudo” de algumas práticas pouco críticas dos Estudos Culturais (quem ainda acha que faz “Estudos Culturais” deve começar urgente a fazer “Crítica Cultural”) – seria também, mais do que um desvio metodológico a obliterar a história e a cultura, uma injustiça para com um gênero. Afinal de contas a canção popular urbana fixou o principal meio de difusão da palavra poética nesse país com larga tradição de analfabetismo. Não é à-toa que nossos mais estudados compositores, Chico, Caetano, Gil, Milton são herdeiros diretos da tradição literária modernista. Foi através, não só da canção, mas de outras expressões culturais como o teatro e o cinema, que, lá pelos anos 60, a massa começou a comer os tais biscoitos finos modernistas. E, desde então, é infinitamente superior o número de leitores, inclusive entre os estudantes de letras, que chegam ao Sr. Manuel Bandeira, ao Sr. Carlos Drummond de Andrade, ao Sr. João Cabral de Melo Neto, ao Sr. Guimarães Rosa (que falta faz Mário Faustino), e a todo o nosso cânone modernista, através das canções ou das adaptações televisivas e cinematográficas.

Se, desde Noel Rosa, a canção brasileira se insere (às vezes diluindo, outras revitalizando – discutamos) na tradição literária modernista, depreende-se que estudá-la criticamente é municiar o patrimônio público de elementos para melhor compreender essa enorme interrogação que se chama Brasil. Ora, não é disso que se ocupam, em larga medida, a disciplina Literatura Brasileira? Nada mais legítimo, então, que o estudo da canção seja uma de suas ramificações.

Contra essa ideia haverá sempre quem se defenda, com uma pergunta quase fatal: e o conhecimento de música? Sim, há que se desenvolver a percepção musical. Defender que a canção seja objeto dos Estudos Literários não significa querer restringir sua leitura aos elementos de uma teoria do texto verbal. Vozes, timbres, arranjos, ritmos, melodias, harmonias, silêncios. Tudo deve contribuir para a leitura. Mas não foi sempre ponto pacífico reconhecer a natureza interdisciplinar da literatura? Os estudantes de letras sempre estudaram além das teorias especificamente linguísticas, antropologia, sociologia, psicanálise, política, e outras ciências. Por que houve, então, tanta resistência à música, até chegarmos a esse momento em que a situação vai se estabilizando, como apontamos no início? Difícil responder com precisão em espaço tão curto. Mas fica aqui uma sugestão: será que é por que o estudo da canção obriga a dividir a percepção e os sentidos diante do objeto? Será que é por que o olho e a mente cedem uma banda do seu trono, de sua hegemonia, ao ouvido e ao corpo?

Então, leitor, pense nessa questão e mantenha os ouvidos atentos enquanto lê os artigos desta edição da Darandina Revisteletrônica.

 

Alexandre Faria, 05/07/2011

Darandina Revisteletrônica