UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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Nesta edição da Darandina, dedicada à temática “Um olhar da margem na literatura brasileira contemporânea”, ganharam destaque artigos, resenhas e textos de criação relacionados à produção cultural das periferias urbanas. Apesar de abrangente, a temática tem como foco a literatura que a partir do ano de 2001 passa a ser nomeada por seus escritores como “marginal” ou “de periferia”, uma expressão que começa a ser sistematizada e a ganhar maior visibilidade com a publicação das três Edições Especiais da Revista Caros Amigos, Literatura Marginal: a cultura da periferia. Com a divulgação feita pela Caros Amigos muitos autores que publicaram seus textos nos atos I, II e III tornaram-se escritores e inauguraram um movimento bastante heterogêneo que faz parte de um sistema muito mais amplo no qual a literatura é influenciada também por elementos extraliterários. Seja construída a partir do literário ou não, trata-se de manifestações culturais nas quais a literatura se (re)constrói continuamente a partir das múltiplas e dinâmicas interações sociais. E talvez por isso, seja ainda mais complicado falar sobre  estas expressões em processo.

Heterogêneas e dialógicas por excelência, as vozes que aparecem na literatura marginal abordam temas variados, mas se destacam sobretudo por levantar questões e apresentar temáticas motivadas pelo contexto de exclusão no qual estão inseridos seus escritores, que em sua maioria são moradores das periferias paulistanas. Sujeitos que frequentemente vêem a escrita e a leitura como elementos de transformação da violenta realidade social em que se encontram. Vozes que embora dissonantes apresentam identidades semelhantes.

Um outro fator que chama a atenção é a mudança do locus de enunciação, observar quem fala, de onde, para quem, como e porque possibilita-nos entender a literatura marginal como um projeto coletivo no qual a linguagem, a estética e a própria literariedade caminham em direção ao ideológico e contribuem para a construção e a articulação de identidades diversas. A mirada no locus contribui também para a compreensão dos sujeitos da enunciação como agentes sociais, que apesar de inseridos em contextos específicos (e o contexto é muito importante para analisarmos cada uma das produções) em geral, se posicionam discursivamente contra as desigualdades, das que eles mesmos são vítimas, denunciando-as publicamente e assumindo uma posição política em favor daqueles que se encontram na mesma condição desfavorável.

É muito estimulante ver que apesar das dificuldades, artistas e pesquisadores da literatura marginal se encontram nesta edição com o objetivo principal de lutar contra estigmas diversos, de divulgar – ainda mais – as vozes que ressoam da metrópole paulistana para o mundo e de “obrigar” as ciências a serem significativas para a sociedade e o cientista  a atravessar a ponte, ou melhor,  a ir aonde o povo está – não cabe mais, modelos e perspectivas que tendem a centralizar o conhecimento, isolando-o da vida prática e confinado-o entre os muros das universidades. E embora tenhamos encontrado muitas “pedras” “no meio do caminho” (DRUMMOND, 1988, p.196), sabemos que elas “quebram vidraças” (Vaz, 2007, p.15). Logo, esta publicação torna-se ainda mais significativa, após tantas lutas é a nossa primeira edição dedicada às vozes da periferia e por ser virtual e ter um blogue próprio está à sua mão e você, caro leitor, possui liberdade para interagir conosco.

Então, o convidamos para participar deste momento único e visitar este dinâmico e fronteiriço espaço no qual se situa a 6ª edição. Um espaço de debate no qual a mirada do crítico deve transitar entre o literário e o extraliterário, o pedagógico e o performático, o discurso dominante e o não hegemônico, num ir e vir em constante processo de (re)construção da própria maneira de participar do mundo. Em outras palavras, através das contínuas interações com outras formas de ver e viver o mundo o crítico vai paulatinamente reconstruindo seu olhar à medida que o diálogo se estabelece e o elemento cultural mirado sofre alterações e é (re)significado.

 

Waldilene Silva Miranda

Comissão Editorial da Darandina Revistaeletrônica

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