UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Literatura toma de assalto espaços mantidos invisíveis…até agora


Gilvan Procópio Ribeiro*

 

É muito oportuno que esta edição de Darandina busque centrar-se na literatura dita “marginal” ou “de periferia” , ou seja, a literatura que se produz nas periferias brasileiras. Observe-se que não uso periferias em um sentido geográfico. Pelo termo, designo antes um espaço social, marcado pela exclusão e pela invisibilidade. Desta forma, podemos ter periferias em quaisquer regiões das cidades, centrais ou não. Note-se, inclusive, que as periferias existem em todas as cidades, pouco importa o seu tamanho.

Quando falo em invisibilidade, estou falando de imensas parcelas da sociedade que não são dignas da atenção de pessoas “bem” situadas, que ignoram estas parcelas ou as percebem apenas como “merecedoras” de paternalismo ou caridade. Ainda nestes casos, são tratados como uma massa amorfa que apenas satisfaz a sensação dos “poderosos” de que são realmente poderosos e podem altruisticamente ajudar alguns “pobres miseráveis” que “não têm onde cair mortos”. Este “coro dos contentes” considera-se detentor de todos os valores civilizatórios e que não participa deles e/ou não os considera “os valores” é um bárbaro, um paria, um verme. Nada que mereça atenção.

Ora, o que observamos há alguns anos é que, surpreendentemente, os vermes começaram a falar e, ainda mais, a escrever. O espaço sagrado da LITERATURA começa a ser invadido e de forma magistral.

Façamos um ligeiríssimo percurso histórico, para retomarmos o fio da meada. Na cultura e na literatura brasileiras, as periferias aparecem muitas vezes, como podemos ver em Lima Barreto, João do Rio, Jorge Amado e, mais recentemente, em João Antônio e Plínio Marcos, este último procurando manter sempre uma atitude marginal. Mas, em todos os casos citados, eles são mais tema que outra coisa. A grande diferença pode ser percebida por uma frase de Ferréz: “Eu vivo dentro do tema”.

Esta é a grande marca distintiva: não é mais necessário que falem por eles, pela periferia. Eles podem e sabem soltar a própria voz.

E temam, e tremam, os que podem não querer ouvir o que dizem.

De resto, as vozes ecoam cada vez mais o grito de rappers: “É nóis!”

 

* Professor da Graduação e da Pós-Graduação em Letras.

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