UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

Você está em: Edições Anteriores > Volume 3 - Número 1 - Novembro de 2010 > Apresentação

Em sua famosa aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França, pronunciada em 7 de janeiro de 1977, afirmava Roland Barthes: “… o que pode ser opressivo num ensino não é finalmente o saber ou a cultura que ele veicula, são as formas discursivas através das quais ele é proposto”[1].

Barthes pensava aí a necessidade de se criar um “método de desprendimento” capaz de fazer do ensino um acontecimento tão potente quanto o que ele compreendia ser a prática literária em seu sentido forte: uma escritura capaz de fazer “do saber uma festa” através da qual as palavras não seriam “mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos”, mas “lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores…”[2].

A proposição escritural do “método do desprendimento” barthesiano nos leva a uma reflexão modal a respeito da prática de ensino e pesquisa: pensar o como dar aula e o como produzir pesquisa e não apenas o que ensinar e o que pesquisar.

Tradicionalmente, o pensamento cotidiano dos ambientes acadêmicos se volta, quase que de forma exclusiva, para os chamados “conteúdos de pesquisa/conteúdos disciplinares”. Desse modo, a sala de aula e os laboratórios de pesquisa passam a ser apenas um instrumento para se cumprir uma qualquer idéia de saber, nesse caso compreendido como um signo abstrato e autônomo que está para além da presença do corpo vivo e coletivo que respira e faz respirar a ecologia dos ambientes escolares. Trata-se de uma teleologia que parece nos impulsionar a indagar “o que é determinado saber disciplinar?”, ou ainda, “o que devo saber de determinado saber disciplinar?”, em detrimento de questões como: “de que modo estou me afetando por esse suposto saber?”, “de que modo, aqui e agora, minha vida tem a ver com isso que considero uma pesquisa com o saber?”

Estar em um ambiente de pesquisa, ou em uma sala de aula – tal como estar em contato com um livro – é estar dentro de um discurso cujo texto, antes de querer dizer sobre algo, diz, encena, reivindica algo de sua própria existência. Pesquisar um texto (seja ele verbal ou não verbal) é também tecê-lo, retecê-lo, enfim, reescrevê-lo em uma deriva plural e viva que não cessa. Entendo texto, aqui, não como algo fixo e acabado, que se pode fechar em um suporte, mas, voltando mais uma vez a Barthes, como um processo infinito que não é passível de se conter em uma obra:  “…o Texto não pode parar (por exemplo, numa prateleira de biblioteca); o seu movimento constitutivo é a travessia (ele pode especialmente atravessar a obra, várias obras).(…) O texto é plural. Isso não significa apenas que tem vários sentidos, mas que realiza o próprio plural do sentido: um plural irredutível (e não apenas aceitável). O texto não é coexistência de sentidos, mas passagem, travessia, não pode, pois, depender de uma interpretação, ainda que liberal, mas de uma explosão, de uma disseminação…”[3]

O texto de uma sala de aula (o texto- aula), assim como o texto de uma pesquisa, não é um objeto, mas um modo de atravessar um discurso, um modo cujo princípio constitui um movimento em prol da descentralização. Quanto mais descentralizadas forem as relações estabelecidas em um determinado ambiente discursivo, mais textual (ou seja, mais plural) será a ecologia desse ambiente. Os ambientes de pesquisa e ensino de nossa cultura – na medida em que são processados teleologicamente – tendem a conter as forças textuais que os atravessam para organizar – em nome de um ideal de acabamento – a obra professoral de um saber sobre o saber e não com o saber.

Nesse sentido, me parece extremamente necessário e saudável criar, e/ou reatar, os laços entre o pensamento teórico-literário, ocupado em pensar as forças e as formas da linguagem, e o ensino da literatura, tal como se vê no propósito explícito do presente número da Revista Darandina, propósito muitas vezes ausente da agenda de professores e pesquisadores de literatura.

Refletir sobre os possíveis papéis da teoria literária no complexo âmbito da educação contemporânea, mais do que uma provocação estética, é também uma provocação política aos circuitos estabelecidos da literatura e suas instituições legitimadoras, sejam elas acadêmicas, e/ou mercadológicas, e/ou midiáticas.

Parabéns aos editores da revista pela feliz escolha do tema e a todos que contribuíram, com artigos, para o seu desdobramento e ampliação de suas ressonâncias.

Prof. Dr. André Monteiro

 

 

 


[1] Aula. São Paulo: Cultrix, 1997, p.43.

[2] Idem, p.21.

[3] “Da obra texto”. In : O Rumor da língua. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 73-74.

 

    Darandina Revisteletrônica