UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Alvíssaras


Darandina. Impossível batismo mais alvissareiro para revista eletrônica, acadêmica, editada por alunos de mestrado e doutorado em Estudos Literários. Poucos títulos, inspirados em nosso cânone, expressariam tão bem a vida vertiginosa dos programas de pós-graduação do país. Não me tem sido infreqüente participar de bancas, especialmente as de mestrado, em que um argumento se repete em diferentes defesas. O orientador atesta e o argüidor compreende quando o futuro mestre acaba por reconhecer que algumas falhas verificadas deveram-se à pressa de acabar, ao prazo inclemente que o obrigou ao ponto final prematuro. Numa dessas bancas, lembro-me bem, ao avaliar uma dissertação sobre A caverna, de Saramago, ocorreu-nos a observação de que os novos tempos, que destituíam o velho oleiro de suas posses e de sua identidade, chegavam aos centros produtores do conhecimento. Exigências sociais e econômicas vêm reconfigurando os programas de pós-graduação. Os que ingressam com menos experiência e repertório, muitas vezes recém-graduados, têm menos tempo de amadurecimento.

E se esses jovens mestres e mestrandos ainda se dispõem a editar uma revista acadêmica, devemos louvar-lhes o heroísmo. Heroísmo não, serei mais fiel ao conto que os inspirou: o milagre. E, por favor, perdoem-me epígrafe tão fora do lugar, distópica. Para sublinhar justamente uma utopia:

Fato, fato, a vida se dizia, em si, impossível. Já assim me pareceu. Então, ingente, universalmente, era preciso, sem cessar, um milagre; que é o que sempre há, a fundo, de fato. De mim, não pude negar-lhe, incerta, a simpatia intelectual, a ele, abstrato – vitorioso ao anular-se – chegado ao píncaro de um axioma. (Rosa)

É um milagre humano, que lhes toma tempo e esforço. Bens tão raros nesse corre-corre todo. Mas se foram ao Aulete, buscar a darandina, o lufa-lufa de suas vidas acadêmicas, vou ao Aurélio encontrar um sentido especial para o título dessa apresentação para Darandina, revista que os alunos da PPG-Letras Estudos Literários da UFJF acabam de engatilhar. Alvíssaras: “prêmio ou recompensa que se concede a quem anuncia boas novas ou entrega coisa que se perdera” (o grifo é nosso). Hoje em dia, a edição de revistas acadêmicas pelos alunos de mestrado e doutorado, mas que iniciativa suplementar ao currículo, é reparadora. Sua finalidade evidente é suprir aquela lacuna que denunciávamos ao referir o romance de Saramago, a da identidade.

Darandina cria um espaço público e dinâmico que transforma a produção intelectual dos alunos, da condição de mero cumprimento de obrigação para com os professores e o curso, em discussão e troca entre pares. Com isso se amplia a possibilidade de amadurecimento e de reflexão; os editores são chamados à responsabilidade de definir critérios, discutir e selecionar os trabalhos recebidos, e os autores são confrontados com a leitura não apenas avaliativa, mas seletiva de seus artigos. Essa ação requer continuidade e permuta entre os alunos. O milagre se faz a cada dia, e sintam-se desde já convidados a renová-lo, os alunos de cada nova turma.

Este é o primeiro passo, e com ele, os editores e autores, presentes e futuros, dão por si, no píncaro de um axioma, nus no alto da palmeira. Grito com eles: “Viva a luta! Viva a liberdade!”. E vida longa à Darandina.

 

Prof. Dr. Alexandre Graça Faria

    Darandina Revisteletrônica