UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Editorial

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Poética moderna e contemporânea: uma perspectiva comparativa


A poesia, que já foi muitas vezes reprimida ou relegada ao ostracismo em diferentes circunstâncias e contextos sociais, resiste de forma sutil e obstinada. Em coro às palavras de Alfredo Bosi[i], ela “resiste ao contínuo ‘harmonioso’ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso”. Assim, a poesia ultrapassa os limites da linguagem usual, contrapõe ou abre novas perspectivas para os discursos correntes, desvela o que estava latente, apresenta o que era impensável ou considerado inexprimível.

O discurso poético, avesso à serenidade, desconcerta, incomoda, desnorteia e, com suas modulações estéticas e incentivos à reflexão, propaga sentidos, ilumina a consciência humana, liberta o homem de formas convencionais de pensar e aponta para, como, mais uma vez, lembra Bosi, uma “realidade pela qual, ou contra a qual, vale à pena lutar”[ii].

Nesse sentido, a presente edição da Darandina Revisteletrônica abre espaço para o intercâmbio de ideias e, também, para a análise e o fomento de discussões sobre a poética moderna e contemporânea. Os trabalhos que compõem essa edição foram estruturados a partir de uma abordagem teórico-metodológica comparativa que traçou pontos convergentes e dissonantes entre a obra de diferentes poetas de língua portuguesa ou de outras línguas.

A proposta de análise comparada ganha destaque nesse número da Darandina, pois acreditamos que ela constrói pontes que permitem a delimitação do que é consonante e particular nas poéticas analisadas, permitindo-nos transitar através dessas pontes pelo espaço de pequenas ilhas e, por conexões, até formações mais amplas, como são os arquipélagos.

Sendo assim, se a comparação “aproxima sem confundir e contrasta sem excluir”[iii], como afirma Tânia Franco Carvalhal, no presente número da Darandina somos convidados a percorrer a leitura de artigos que promovem o diálogo entre a poesia, em língua portuguesa, de Cecília Meireles, Cláudio Manuel da Costa e Manuel Bandeira, de Ferreira Gullar e Luiz de Miranda; entre João Cabral de Melo Neto e o poeta francês Francis Ponge; entre Cecília Meireles e John Keats, poeta inglês.

Além desses profícuos diálogos, também vislumbramos a comparação entre o mito fáustico em Fernando Pessoa, Paul Valéry e Thomas Mann, a leitura comparada entre as poéticas do simbolista francês Arthur Rimbaud e a do expressionista austríaco Georg Trakl e, ainda, a comparação em língua inglesa tecida a partir da leitura de The Waste Land, de T. S. Eliot, e Libretto for the Republic of Liberia, de Melvin B. Tolson’s.

Nessa edição, também se encontram alguns textos que são resultado das oficinas de criação literária oferecidas pelo Curso de Letras da UFJF, durante os dois semestres de 2010. Tais oficinas foram ministradas pelo professor Gilvan Procópio e a publicação desses textos aqui na Darandina tem por objetivo divulgar a produção realizada em sala de aula por nossos jovens colegas.

Enfim, boa leitura!

 

Patrícia Ribeiro

Wagner Lacerda

Comissão Editorial da Darandina Revisteletrônica

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i BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1983, p.146.

[ii] Idem, p.192

[iii]CARVALHAL, Tania Franco. Lugar e função da literatura comparada nos processos de integração cultural. In: Gláuks – Revista de Letras e Artes, Viçosa, v.1, n.1, jul.-dez. 1996,  p.14.

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