UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

ISSN 1983-8379

Apresentação

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Uma cidadania sem passaportes

 

Se, conforme aponta Marcos Siscar em Poesia e crise[1], a crise é o elemento fundante e crucial da nossa visão da experiência moderna, e isso mais explicitamente desde que Baudelaire ajudou a fixar o termo “modernidade” e a vinculá-lo a uma poética na qual o sentimento de mal-estar  expressou um presságio da ruína,  o discurso poético que dela decorre carrega e formaliza esse mal-estar, dramatizando-o como (novo) sentido do contemporâneo.

A ponte entre a poesia moderna e a contemporânea está erguida, pois, a partir dessa partilha de perspectivas sobre a realidade, mediada pelo sensor do poeta, esse “receptor sensível da tragicidade” ou “profeta dos escombros”, conforme o nomeia em  vários momentos ao longo do ensaio o próprio Siscar. Sejam escombros herdados da modernidade tardia, como no caso das vozes da vanguarda que surgiram para derrubar velhos dogmas líricos, sejam os muitos escombros que assombraram os poetas ao longo do século XX – nas mais variadas tradições literárias e culturais ocidentais – em função de uma realidade histórico-social que engoliu sem mastigar gerações de artistas e intelectuais, a poesia teve e tem a capacidade de questionar o presente, ao externar um sentimento de desajuste que é sim uma forma de crítica aos valores da nossa sociedade e da nossa comunidade humana. Talvez não uma crítica partidária explícita de tal ou tal outra ideologia – como se hoje fosse fácil, aderir a esse tipo de discurso … – , mas sim partidária do humanismo, que é o que nos salva no “mundo mundo vasto mundo”.

A partir dessa observação, ficam evidentes a necessidade e a importância de dedicarmos um olhar atento às contribuições estéticas e reflexivas propiciadas pelo discurso poético, melhor ainda se desde uma perspectiva comparada, já que a cidadania poética não requer passaporte nem visto de entrada. E, por não exigir visto de entrada, pode transitar livremente pelos pensamentos e pelas reflexões de todos aqueles desejosos de semear indícios e colher dúvidas no vasto campo do saber.

A poesia brasileira muito dialogou e ainda dialoga com as tradições literárias “clássicas” que ajudaram a forjar uma identidade literária nacional ao longo dos séculos: a poesia francesa, a poesia italiana, a poesia clássica (latina e grega), paralelamente à poesia inglesa e norte-americana, a poesia espanhola e a hispano-americana, além obviamente da poesia portuguesa foram roteiros que ajudaram a construir a poesia brasileira moderna e contemporânea. A esses roteiros vem se acrescentar, recentemente, o rico diálogo com a produção poética dos países africanos de língua portuguesa, cuja entrada no mercado, na academia e no gosto brasileiro já constitui uma evidência. Além disso, podemos observar uma presença mais destacada, ao longo dos últimos anos, graças a um árduo trabalho de tradução, de edições de poesia russa e de países do antigo bloco do Leste europeu, como é o caso da recente edição da antologia da magnífica poeta polonesa Wilsawa Szymborska, suprindo em parte a falta de acesso direto às poéticas escritas nessas línguas tão distantes do universo dos países da Palop.

A presente edição da revista Darandina se debruça sobre essas e outras questões centrais à reflexão poética, na tentativa de mapear o mundo no qual vivemos e as várias possibilidades de interpretação do mesmo, seguindo a sugestão nada confortável, porém muito lúcida e contemporânea do poeta italiano Eugenio Montale, do qual faço meus os seguintes versos (em tradução de Renato Xavier) para servirem como epígrafe do presente número da revista:

 

“Não nos peças a fórmula que possa abrir mundos,
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Hoje apenas podemos dizer-te
o que não somos, o que não queremos”

 

Prisca Agustoni

 

 


[1] Campinas: Editora Unicamp, 2010

Veja também: Criação Literária.

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