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Humor e Qualidade

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Humor e Qualidade no Audiovisual Brasileiro

 

O tema da qualidade na televisão vem sendo debatido desde os anos 1980 por acadêmicos e críticos e vem sendo incorporado na legislação da mídia de diversos países, principalmente europeus. No que diz respeito à televisão brasileira, encontramos uma lacuna no estudo dos programas humorísticos sob a perspectiva das discussões sobre a qualidade. Este é um conceito controverso, porém defendemos que pode ser articulado metodologicamente, a fim de contribuir com a reflexão sobre a análise de produções audiovisuais.

O projeto Humor de Qualidade no Audiovisual Brasileiro é desenvolvido com base nos conceitos de humor e comédia definidos por Luigi Pirandello, na definição do riso proposta por Henri Bergson e na teoria de John Mepham sobre a qualidade. Sua proposta é pensar o humor de qualidade como aquele que provoca o riso ambíguo que antecede uma reflexão gerada por uma quebra de expectativa, relacionado a uma produção de sentido que estimula o pluralismo e a diversidade cultural. A qualidade de um produto audiovisual está ligada à sua capacidade de promover o envolvimento de um grupo a partir da diversidade que apresenta, permitindo que os espectadores enriqueçam e aprimorem as suas experiências.

Para definir a amostra e operacionalizar a análise, categorizamos o gênero humorístico na televisão em humor-jornalismo e humor-ficção. O humor-jornalismo se caracteriza pela reprodução de fatos reais e de interesse público de forma bem humorada (se valendo de traços do humor, como a ironia, o grotesco ou a sátira); pela apropriação da estética jornalística, seja com o intuito de desconstruir o discurso jornalístico ou de aproveitar a forma de levar “fatos reais” culturalmente conhecidos pela sociedade para mostrar suas idiossincrasias através de relatos fictícios. O humor-ficção requer a criação de situações ou cenas ficcionais. São programas que possuem um enredo, com um conjunto de personagens principais com desenvolvimento ao longo da trama. São normalmente programas verossímeis, como os sitcons, com situações bem humoradas do dia a dia. Essas situações podem tanto ser de comédia, quanto de humor, uma vez que podem provocar o riso imediato e despreocupado (uma queda, algum ocorrido inusitado) ou podem apresentar caricaturas e paródias, gerando um riso ambíguo e a reflexão sobre a realidade.

Foram criados parâmetros de qualidade para a análise dos programas humorísticos da televisão aberta e por assinatura. Estes estão articulados a partir de dois conceitos: modos de representação e experimentação. Os modos de representação estão relacionados à criação e desenvolvimento dos personagens, na medida em que estes podem ser tanto caricatos, grotescos ou satíricos, independentemente das duas categorias estudadas. Há uma reflexão sobre o papel desempenhado pelos personagens humorísticos na nossa sociedade, isto é, indagamos se reafirmam estereótipos e lugares-comuns; se criam bordões que se perpetuam; se criticam os costumes e/ou fazem algum tipo de crítica social; em resumo, se contribuem para quebrar tabus e promover a diversidade em suas diversas acepções. Nosso interesse é perceber se a criação dos personagens humorísticos contribui de alguma forma para pautar temas relevantes socialmente e para deslocar a atenção da banalização social que a televisão reitera incessantemente na maioria dos seus programas.

A experimentação está relacionada com a utilização dos recursos técnico-expressivos, característicos da linguagem audiovisual, de forma inovadora e criativa. Ou seja: investigamos se os programas humorísticos criam propostas audiovisuais originais ou apenas reciclam formatos já existentes; se os recursos técnico-expressivos contribuem para a construção de narrativas que promovem a diversidade e o debate de ideias e de pontos de vista. Além disso, discutimos também a forma como o programa incentiva a participação do público e dialoga com outras plataformas, principalmente na internet.

 

Metodologia

Os programas foram analisados utilizando a metodologia semiótica por meio da reflexão sobre os planos da expressão e do conteúdo, e a mensagem audiovisual. Os aspectos considerados na análise do plano da expressão foram os seguintes: produção de sentido a partir dos elementos estéticos; uso dos recursos técnicos expressivos (áudio, vídeo, edição grafismo); e atuação dos pivôs, personagens, apresentadores, entrevistados, comentadores. Sendo assim, a análise caracterizou os elementos estéticos do programa nos seguintes códigos: visuais (câmera, iluminação, cenário, atuação do elenco, guarda-roupa e maquiagem, qualidade técnica da imagem); sonoros (tipos de áudio, qualidade técnica do áudio); sintáticos (edição, ritmo do programa) e gráficos (vinheta inicial, grafismos, rodapés, vinheta final).

No plano do conteúdo, foram primeiramente definidos 17 indicadores de qualidade, mas a análise foi feita com ênfase em apenas quatro: estereótipo, oportunidade, diversidade de sujeitos representados e ampliação do horizonte do público.

Oportunidade: procura aferir a pertinência e relevância dos temas, em uma dada representação nos diferentes pontos de vista. Nesse indicador de qualidade leva-se em conta se o produto audiovisual se pauta na agenda midiática para escolher os seus temas, e se esses temas são relevantes para adicionar ou agregar algum tipo de valor à emissão.

Ampliação do horizonte do público: procura aferir se as propostas são, por natureza, polêmicas, contraditórias e férteis, no sentido em que farão os telespectadores interagentes refletirem sobre aquilo que estão assistindo. Tais propostas devem contribuir para ampliar o repertório cultural do público, dando a conhecer novas problemáticas. Os temas levantados devem ter determinada relevância ao ponto de ampliar a “visão de mundo” do telespectador interagente, apresentar outros pontos de vista e estimular o pensamento e o debate de ideias.

Diversidade de sujeitos representados: refere-se à representação dos diferentes grupos sociais trazidos pelo programa/canal. Para esse indicador devemos levar em consideração os mais diversos fatores que caracterizam os diversos grupos sociais, como a diversidade temática, geográfica, política, socioeconômica, cultural, étnica, religiosa, de gênero e de pontos de vista.

Estereótipo: verifica se as formas de representação adotadas afirmam ou desconstroem estereótipos. Em caso de afirmação, o produto audiovisual acaba reforçando, através do deboche e de situações que beiram o ridículo, generalizações usadas que se consolidaram ao longo dos anos. E no caso do estereótipo de desconstrução o objetivo é fazer os espectadores pensarem, pelos textos absurdos e improváveis, e pelo exagero das atuações, sobre o que estão assistindo.

Na análise da mensagem audiovisual, outros quatro indicadores foram aprofundados, num universo de oito estudados: originalidade/criatividade, diálogo com/entre plataformas, solicitação da participação ativa do público e clareza proposta.

Originalidade/Criatividade: procura aferir em que medida o produto audiovisual apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, e experimenta com a linguagem audiovisual tanto em termos da apresentação quanto da abordagem de temas.

Diálogo com/entre plataformas: verifica se o produto audiovisual tem capacidade para se adaptar à convergência midiática, possibilitando uma interação entre diferentes tipos de plataformas e conteúdos, não se esquecendo dos crossovers, no caso de vídeos do YouTube, e das menções às outras plataformas e conteúdos, comumente vistas na TV.

Solicitação da participação ativa do público: refere-se à adoção de mecanismos utilizados para estimular a participação ativa do público. Dentre as formas mais comuns estão a comunicação direta entre o emissor e o público; a citação do nome do espectador; o uso de gírias (para o público jovem) ou de expressões mais formais (para um público mais maduro) e a forma de se dirigir ao público através da câmera.

Clareza da proposta: Procura aferir se o produto tem uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, de modo que explicite o formato trabalhado

Na TV, o levantamento foi realizado de 1960 a 2014 e a amostra dos episódios dos programas para a análise se deu de forma aleatória de acordo com a disponibilidade do material audiovisual. No Youtube foi feito um levantamento de 48 canais e a amostra analisada é de 19 canais, num total de 5 vídeos mais visualizados por canal. A seleção foi feita dos canais que tinham mais de 100.000 inscritos, estavam ativos em setembro de 2015 e tinham periodicidade de publicação, o que demonstra uma proposta comunicativa do canal. Os vídeos selecionados foram analisados de acordo com uma avaliação de 0 a 4: zero se o indicador não constar na emissão observada; um se constar pouco ou for fraco; dois, se aparecer de forma razoável, três, se for bom ou considerável e quatro, se constar muito ou for muito bom.

 

Grupo de Pesquisa Comunicação, Arte e Literacia Midiática