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Dossiê: Violência Social (2018)

 

O elevado número de ocorrências em destaque no noticiário brasileiro tem fomentado a discussão sobre a violência no país. Somente no ano passado, foram mais de 60 mil homicídios por motivos violentos, registrando um aumento de 40% nos últimos dez anos. Além dos números alarmantes, o que também chama a atenção é que 80% desses crimes não são solucionados, demonstrando fragilidades diversas, seja no papel do Estado, na Justiça e na própria sociedade (RAMOS, 2017). E, diferentemente do que a grande mídia desenha, a violência não está centralizada no Sudeste: em 2017, Rio Grande do Norte, Acre, Pernambuco, Ceará e Alagoas registraram as maiores taxas de mortes violentas por 100 mil habitantes. O primeiro estado do Sudeste a aparecer no ranking é o Espírito Santo, em 10º lugar (CAESAR; REIS, 2018).

Diante deste cenário, como discutir a violência e buscar medidas que possam efetivamente transformar esse quadro alarmante? Por onde começar? Quem deve agir?

Por se tratar de um problema de ordem social, é um tema que deve ser discutido em conjunto, contando com a contribuição dos diversos setores da sociedade. E o documentário tem um papel de grande relevância neste âmbito, uma vez que, segundo Comolli (2008), é um cinema construído em fricção com o mundo, investindo na potência dos afetos e na duração da fala. Os documentaristas tomam a realidade como sua matéria-prima, imprimindo nela novos olhares e sentidos variados que podem despertar outros afetos no espectador, afetos estes que o levem a refletir sobre sua posição no mundo. É nisto que reside a potência transformadora do cinema, que faz a ponte entre a arte e o mundo.

Conforme defende Rocha (2004), em A estética da fome, “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria”. Assim, cabe a nós avaliar como esses filmes articulam os sentidos e trabalham com os estigmas e estereótipos vigentes de modo a apontar para alguma possibilidade de transformação.

Avaliar os documentários nacionais que tematizam a violência social é uma forma de nos situarmos em nosso contexto e nas memórias recentes, buscando entender esse quadro complexo repleto de nuances distintas, mas que, visto no todo, trás alguns pontos em comum que merecem ser discutidos.

É a partir da década de 1990, mais precisamente com a obra Notícias de uma guerra particular, dirigida por João Moreira Salles e Kátia Lund, que a violência urbana ganha maior destaque no cinema nacional. A partir desta obra, descrita pelo próprio realizador como “um filme de urgência”, diversas produções com temas similares surgiram, seja no documentário ou na ficção, como Ônibus 174 (2002), Cidade de Deus (2002) e Justiça (2004), dentre outras.  Desenhando os cantos obscuros de um Brasil urbano e desigual, essas obras continuam desafiando nossos olhares a refletir sobre a sociedade em que vivemos. Em relação ao documentário brasileiro, desde então é crescente o número de produções premiadas em festivais nacionais e internacionais, que possibilitaram o acesso aos filmes a um número também crescente de espectadores.

Desse modo, utilizando algumas categorias de análise como referências centrais (contexto, a voz do documentário, som e imagem – enquadramentos e planos, montagem, posição hegemonia x contra hegemonia, personagens, e identificação e projeção), buscaremos entender como esses filmes foram pensados e desenvolvidos e os possíveis impactos na sua recepção. Outra categoria de análise será o “risco do real” descrito por Comolli (2008) como a produção aberta ao real, sem roteiro, plano ou ideias prévias, onde a questão passa do “como filmar” para o “como fazer para que haja filme”. Para o teórico, é no risco que o documentário revela toda a sua potência e essência, deixando que o real penetre a cena, que os sujeitos revelem a sua essência e a sua verdade. Cabe, então, questionarmos: “será que esses filmes correm o risco para revelar a sua inscrição verdadeira?”.

Entendemos ser importante aproveitar o cenário atual para retomar as obras de 1990 até os dias atuais porque, assim como Comolli (2008), creditamos ao documentário a ousadia da criação, a qual também pode se converter em uma forma de luta.

Em que medida esses documentários deslocam o nosso olhar e nos levam à reflexão a partir de outras perspectivas? Até que ponto somos personagens ativos da cena, ou meros consumidores? Para que essas obras cumpram realmente a função social do cinema, não basta apenas que deem voz aos excluídos ou marginalizados. A forma como esses discursos são apresentados e os olhares a partir dos quais foram elaborados fazem a diferença. E, por isso, objetivamos, a cada semana, analisar uma obra específica apresentando os olhares do diretor, os olhares dos personagens e os nossos próprios olhares enquanto espectadores.

 

Referências:
CAESAR, Gabriela; REIS, Thiago. Brasil registra quase 60 mil pessoas assassinadas em 2017. Portal G1, mar. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/brasil-registra-quase-60-mil-pessoas-assassinadas-em-2017.ghtml>. Acesso em 18 abr. 2018.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

RAMOS, Beatriz Drague. Homicídios no Brasil são pouco elucidados, diz pesquisa. Carta Capital, dez. 2017. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/sociedade/homicidios-no-brasil-sao-pouco-elucidados-diz-pesquisa>. Acesso em: 18 abr. 2018.

ROCHA, Glauber. Eztetyka da Fome. In: Revolução do cinema novo. São Paulo Cosac Anify, 2004. p. 63-67.

 


 

Olhares possíveis: a diversidade de visões no cinema documentário (2017)

 

Quando o cinema dava os seus primeiros passos, em um momento de total encantamento com “máquina de sonhos”, um ousado cineasta apresentava uma proposta paradigmática: o cine-olho. Em 1929, o russo Dziga Vertov lançava o filme “Um Homem com uma Câmera”, obra que ficou conhecida como metacinema, por desvelar ao espectador as operações do “olhar mecânico”. Em várias passagens, revelava-se o potencial da câmera de romper com os limites de espaço e tempo e de libertar o olhar humano de sua imobilidade. Ali, o olhar cinematográfico se mostrava um aparato privilegiado. Mas será que esse olhar é essencialmente neutro, capaz de escapar dos estereótipos, das forças de poder e clichês que influenciam sobremaneira o olhar humano? Será que ele guarda em si uma potência exclusiva?

Para buscar responder a essas perguntas, tomamos como referência documentários que tratam de públicos marginalizados, como pessoas em situação de rua, portadores de transtornos mentais, pessoas em situação de pobreza, moradores de favelas, travestis, imigrantes, drogadictos, dentre outros grupos. E identificamos nessas obras a força de três olhares que podem dar dimensões e interpretações distintas para as narrativas apresentadas: o olhar do cineasta (aquele que está por detrás da câmera e funde-se com ela), o olhar do personagem e o olhar do público. Os olhares sobre o mundo e suas representações são, por sua essência, dotados de subjetividade.

O real que se torna objeto de representação sofre um “retoque”, um enquadramento que cria uma nova existência. E desse produto, duas visões ainda podem sobrevir: a do personagem, que carrega consigo toda uma bagagem sobre o universo retratado, e a do espectador que, no caso da representação de pessoas marginalizadas, está acostumado, em seu cotidiano, a negligenciar sua existência e o ambiente em que vivem.

O filme documental, enquanto arte, não está contido somente em suas possibilidades de contar histórias dos sujeitos, mas também em sua potência enquanto produtor de novas narrativas. Contudo, sob múltiplas visões e interpretações, quem é o artista, afinal: o documentarista, o personagem ou espectador? Compreender como é feita essa arte é o que queremos com este projeto.

As vidas que nos escapam aos olhos no cotidiano podem ter muito mais vida no documentário do que no real. A diferença é que no documentário essas vidas são percebidas e, no real, muitas vezes elas nem existem. E são essas distintas percepções que nos instigam a buscar nas narrativas marginais os elementos que nos fazem ter interesse nesses modos particulares de estar, inventar e compartilhar mundos.

Por entender que a eficácia da comunicação – seja ela escrita, oral ou audiovisual – depende essencialmente da percepção e que essa percepção se dá de acordo com o repertório de cada um, nos desafiamos a analisar documentários que tratam de públicos marginalizados buscando compreender como cada olhar pode transmitir uma mensagem distinta, assim como gerar uma interpretação diferente.

Em que medida esses documentários deslocam o nosso olhar e nos levam à reflexão a partir de outras perspectivas? Até que ponto somos personagens ativos da cena, ou meros consumidores? Para que essas obras cumpram realmente a função social do cinema, não basta apenas que deem voz aos excluídos ou marginalizados. A forma como esses discursos são apresentados e os olhares a partir dos quais foram elaborados fazem a diferença. E, por isso, objetivamos, a cada semana, analisar uma obra específica buscando captar nelas os olhares possíveis: aqueles presentes em sua concepção e também os que estão na recepção.

 

Confira as análises em: http://observatoriodoaudiovisual.com.br/resultados/documentarios/analise/

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