Exposição L’occhio del poeta apresenta vertentes de arte abstrata italiana

Giulio Turcato_ sem título,1962_ Técnica Mista sobre tela

Obra de Giulio Turcato integra exposição

Um país e uma época da história da arte chegam à galeria Convergência do Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM) a partir desta quarta, 9 de dezembro. A exposição L’occhio del poeta – O olho do poeta retoma 26 obras de destacados artistas do movimento abstrato italiano, que alcançou notável produção durante as décadas de 60 e 70 do século XX.  

A mostra toma por mote o livro homônimo de Murilo Mendes,  composto de  textos e prefácios para exposições e catálogos, escritos na língua de Dante pelo escritor juiz-forano durante os 18 anos que viveu em solo italiano.

Não obstante a variada gama de técnicas expostas – desenhos, pinturas, gravuras e colagens, além de obras que vão da pintura metafísica à optical art, passando por surrealismo, geometrismo, informalismo – uma questão reside tácita em L’occhio del poeta, revelando o espírito que movia os artistas da época: a busca pelo entendimento do lugar e função da “forma” na arte.

A publicação serve de fio condutor da exposição, com os comentários de Murilo acompanhando os trabalhos de cada artista. As observações do poeta, longe de constituírem mero panegírico a seus amigos-artistas, servem de lição para o visitante,  fornecendo-lhe repertório histórico e cultural.

Por exemplo, sobre Carla Accardi, afirma o poeta: “Accardi coordena o espaço substantivo: um duplo espaço lógico e fantástico. Se forma um espaço de cor, um tempo de cor. A cor determina os instantes sucessivos. A cor, semelhante a si mesma, cria o espaço do quadro”.

Na assertiva a respeito de Piero Dorazio, faz uma instrutiva observação sobre a habilidade do artista em harmonizar tensões e paradoxos, a grandeza e a minúcia, num único objeto. “Surpreendia-me ao ver o quadro terminado: a trama complexa de mil fios revelava-se unida sempre, herdeira da tradição de algum antigo pintor flamengo ou artesão de tapeçaria medieval: numa límpida continuidade. Era uma resposta ao universo caótico da então pintura informal, que eu também não podia aceitar. Dorazio conseguia realizar – fenômeno aparentemente ilógico – a monumentalidade da miniatura, devendo ser excluído do elenco de certos artistas contestados por Baudelaire: os que pensam demais e pintam de menos.”

Giuseppe Capogrossi_ Superfície 455, 1961_ óleo sobre tela

Obra de Giuseppe Capogrossi também está na mostra

Assim segue a mostra com comentários sobre os trabalhos de Severini, Capogrossi, Perilli, De Chirico, Corpora, Turcato, Magnelli, Carlucci, Arp, Conte, Biggi, entre outros. Embora as obras sejam a atração maior, a exposição não esquece de ressaltar o espaço onde tudo se deu.

Juízo universal
A Itália é relembrada também através dos olhos de Murilo Mendes. Uma montagem, em tamanho real, do poeta em sua mesa de estudos, na lendária Via del Consolato, 6, cercado pelas obras originariamente sob sua posse, aproxima o visitante da paisagem residencial em que o escritor vivia.

Além disso, uma famosa entrevista de Murilo Mendes à Revista Realidade, de 1972, sobre sua vida e carreira literária, estampa uma das paredes da galeria. Em outra parte, um vinil guarda uma famosa resposta do escritor a uma publicação italiana sobre os motivos que o levaram a escolher Roma como lar, dentre os quais afirma: “Porque é a cidade que vive sob o signo do juízo universal e da mais formidável história em quadrinhos, exatamente o juízo universal de Miguel Angelo, ‘o arrabbiato’, por excelência.”

A pintura italiana muitíssimo conhecida por nomes como os de Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Michelangelo Buonarroti é redescoberta em L’occhio del poeta. Durante o Renascimento, a humanidade voltou seus olhos para admirar a pintura daquele país. No século XX, o olhar do poeta juiz-forano novamente nos indica que esta nação universal ainda guarda a linguagem visual para os problemas contemporâneos. A Itália continua a ser mestra da arte.

Outras informações: 3229-9070

Compartilhe: