Encerramento do Mês da Consciência Negra discute a formação na área da saúde

marceloGiane

Marcelo e Giane integraram mesa-redonda que encerrou Mês da Consciência Negra na UFJF (Foto: Twin Alvarenga)

Depois de 23 dias de debates por diversos pontos da Universidade, o Mês da Consciência Negra idealizado pela Diretoria de Ações Afirmativas (Diaaf) encerrou nesta quarta-feira, 9, suas atividades, na Faculdade de Medicina da UFJF. Durante todos os eventos, um dos principais objetivos foi sensibilizar a comunidade acadêmica para a valorização das culturas afro-brasileiras e africanas.

As discussões e mesas-redondas foram conduzidas com a expectativa de que os cursos da UFJF incluam essas questões em seus currículos, o que já é uma determinação do Ministério da Educação através de duas leis que tratam do assunto (as leis 10.639/2003 e 11.645/08 preveem a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-brasileira e Indígena” nos currículos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e particulares).

O evento circulou pelos Institutos de Ciências Humanas e Artes e Design, Colégio João XXIII, Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino no Município de Juiz de Fora (Sintufejuf), Reitoria e pelas Faculdades de Engenharia, Letras, Direito e Medicina. Nesta última, que encerrou o trabalho, estiveram presentes o vice-reitor no exercício da Reitoria, Marcos Chein, e os integrantes do projeto Ciranda Cidadã, Marcelo Campos e Giane de Almeida.

As determinações propostas pelo Ministério da Educação vão impactar, de acordo com a diretora da Diaaf, Carolina Bezerra, na avaliação dos cursos e também na abertura de novas graduações dentro da universidade. Nessas proposições estão incluídas também, além das relações étnico-raciais, as questões de gênero.

Ainda conforme a diretora da Diaaf, na Universidade Federal de Juiz de Fora alguns cursos já trabalham com essas perspectivas, mas com iniciativas isoladas. São professores que pesquisam o tema e, a partir disso, ministram disciplinas voltadas para as questões relacionadas à cultura afro-brasileira, como por exemplo, nas Faculdades de Letras e de Educação e no curso de Música, no Instituto de Artes e Design.

Segundo Carolina, cada um vai discutir como incorporar essas questões, se em disciplinas existentes, ou se vão precisar de cursos e especialistas para trabalhar esses temas (Foto: Twin Alvarenga)

Segundo Carolina, cada setor irá discutir como incorporar questões étnico-raciais (Foto: Twin Alvarenga)

O objetivo central do Mês da Consciência Negra, no entanto, foi gerar o debate para que o tema ganhe maior abrangência dentro da UFJF, na avaliação da professora Carolina Bezerra. “Eu acho que o fechamento aqui na Medicina vem trazer essa discussão para um dos cursos do ‘trio de ferro’ da educação brasileira, junto com Engenharia e Direito, que formam muitas pessoas que acabam ocupando postos de poder na sociedade, a elite dirigente do país. Não dá mais para que esses cursos não contemplem em seus currículos os temas relacionados às relações étnico-raciais, como a saúde da população negra e o campo dos direitos humanos”.

Essa implementação, segundo a diretora, acontecerá dentro de cada Faculdade ou de cada Instituto. “A partir daqui, cada um vai discutir como incorporar essas questões, se em disciplinas existentes, ou se vão precisar de cursos e especialistas para trabalhar esses temas.” Ela destacou também a campanha “Quantos professores negros você tem?”, que visa questionar não só a universidade, mas a sociedade como um todo. “Foi impactante pensar que de um universo de quase mil professores, só 20 são negros.”

Na avaliação de Chein o principal problema da discriminação é o fato de a sociedade não reconhecer que ela existe (Foto: Twin Alvarenga)

Na avaliação de Chein o principal problema do preconceito é o fato de a sociedade não reconhecer que ele existe (Foto: Twin Alvarenga)

O vice-reitor no exercício da Reitoria, Marcos Chein, abriu o evento destacando a importância da criação da Diretoria de Ações Afirmativas, que possibilita que esses assuntos sejam abordados de maneira institucional. Ele ressaltou que o principal problema da discriminação é o fato de a sociedade não reconhecer que ela existe. “É muito fácil falar em ações afirmativas, é muito fácil falar que não temos preconceito, mas ele existe e vem silencioso, rasteiro. A maior parte da população carcerária do Brasil é composta por negros e pobres, o número de assassinatos envolvendo travestis e transexuais é enorme. A prova desse preconceito é que muita gente acha que a abordagem desse tema é irrelevante”.

Formação dos profissionais

A Ciranda Cidadã é um projeto criado pela Secretaria de Desenvolvimento Social, em parceria com a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora. Seu objetivo é chamar a atenção para os direitos da mulher, da população negra e do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).

Marcelo Campos é médico e fala com propriedade sobre a saúde da população negra e as questões raciais. Na sua visão, os currículos de formação em Saúde não contemplarem esses assuntos está ligado ao que ele chama de racismo institucional na área da saúde. “A gente precisa a começar a conscientizar a área acadêmica sobre as razões pelas quais isso não acontece. A iniquidade racial em saúde é um fato inexorável no Brasil, evidenciado por inúmeros estudos acadêmicos e estatísticos. Isso existe particularmente por conta de um racismo institucional que existe na saúde, comprovado por inúmeros dados”, explicou.

Campos acredita que muitas dessas estatísticas vêm do fato de a sociedade negar a existência do racismo. Particularmente no caso dos profissionais da saúde, não ter contato com essas questões durante a formação faz com que os profissionais reproduzam o racismo em suas práticas cotidianas.

“Na medida em que a gente traz, ao menos de forma inicial, um despertar para essas questões, a gente acredita que alguns possam ficar incomodados. Eu não pretendo aqui mudar comportamento racista de ninguém, mas pelo menos gerar o incômodo para ver se a partir daí existe alguma possibilidade de mudança.”

A supervisora de Promoção de Direitos Humanos e Cidadania da Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Juiz de Fora, Giane Elisa Sales de Almeida destacou a importância de trabalhar com a temática étnico-racial nos currículos de cursos de saúde, pois, segundo ela, há uma dívida com a população negra, que há muitos anos vem sendo mal atendida. “Os cursos reproduzem esse racismo institucionalizado e não se pensa que tipo de profissional deve ser formado para atender à população em postos de saúde e outros espaços de promoção de saúde. É preciso rever essa formação.” 

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