O retrato da história: A iconografia do cordel

Lua de mel de matuto__xilogravura de J.Borges (José Francisco Borges)_Reprodução

Lua de mel de matuto__xilogravura de J.Borges (José Francisco Borges)_Reprodução

“Iconografia do Cordel” é a mostra que a Galeria do Forum da Cultura apresenta a partir desta terça, 13 de agosto, até dia 8 de setembro. Reunindo algumas capas de folhetos de cordel a exposição dialoga com o Museu de Cultura Popular que, no Mês do Folclore, está apresentando o “Folclore Brasileiro”. A exposição fica aberta ao público de segunda a domingo das 14h às 20h30. O Forum da Cultura fica na R. Santo Antônio, 1112.

O cordel

A herança da colonização portuguesa preservou nos poetas de feira a vocação dos trovadores medievais. Hoje, um amplo campo de pesquisa, os folhetos de cordéis entraram na academia. A partir dos estudos da Folkcomunicação, criada por Luiz Beltrão, estes folhetos saíram das feiras e passaram a ser observados como manifestações de informação, entretenimento e educação popular.

A literatura popular passou a chamar a atenção de pesquisadores e sua forma de folhetos rústicos sofreu modificações. Dos primeiros folhetos, escritos à mão, passando pelas gráficas rústicas chegaram a editoras que publicaram uma versão moderna de histórias consagradas.

O poeta de cordel cumpre a função do jornalista na feira. Suma missão é observar o mundo transformando suas opiniões em versos, quer usando a ficção quer, tratando de temas contemporâneos, como políticos safados e ladrões. O mundo mítico das aventuras de Lampião, a religiosidade do Padre Cícero, e as espertezas de João Grilo aparecem para divertir e educar. O cordel é um grande exemplo de jornalismo opinativo para classes populares.

O nome primitivo, herdado de Portugal era literatura de barbante, mas a denominação ibérica cedeu lugar à designação de cordel. O poeta popular era um empreendedor que passava por todos os estágios da sua produção. Criava os versos, imprimia na gráfica e declamava na feira, cativando com suas histórias a alma do povo. Muitos analfabetos aprenderam a ler em páginas do cordel, descobrindo o valor das letras. Existem afirmações de pessoas sem letras comprando os folhetos nas feiras e guardando em sua casa a espera de um alfabetizado que pudesse ler as histórias. Este ledor proporcionava alegria à família que escutava com atenção as histórias fabulares, políticas e educativas.

Os cordelistas, assim chamados são verdadeiros atores. Sua interpretação, muitas acompanhadas por rabecas e violas são capazes de influenciar o público que mostra seu agrado comprando os folhetos. De forma cadenciada, marcando os versos bem rimados são capazes de dar vida a suas histórias que passam a ser repetidas. Em muitas das vezes a cantoria torna-se animada com cantorias ou desafios de poetas repentistas que criam versos de improviso.

A temática do cordel é extensa e variada. Figuras notáveis por seus feitos políticos, religiosos ou assombrosos são tratados pelos autores. Bandidos, como Lampião, Presidentes, como Getúlio Vargas e religiosos, como o Padim Padre Cícero e Frei Damião, ocupam espaço junto aos Pavões Misteriosos e outras lendas da ficção nordestina. Os autores ainda se prestam a ajudar a educação do povo em relação à saúde.

Aos que pensam que a cultura popular é uma instância congelada pela tradição, o cordel responde com uma intensa atualização. Os temas de interesse público são tratados com grande acuidade. No campo da temática os cordelistas acompanham os avanços do mundo e falam sobre a chegada do homem na lua, o escândalo do mensalão, a queda das torres gêmeas, os desastres do avião. Esta função informativa, em tempos não midiáticos levava notícias do mundo ao camponês que passeava pela feira. A literatura de cordel deu conta do mundo para o homem pobre e abasteceu sua imaginação com lendas e romances no tempo em que a novela não chegava ao interior.

As ilustrações

A xilogravura, inventada pelos chineses no século VI, criou uma iconografia própria para ilustrar o que vinha no miolo do folheto de cordel. Pendurados nos barbantes com pregadores de roupa ou abertos no meio os pequenos livretos. Os mais antigos eram impressos nestes carimbos de madeira, rusticamente entalhados e entintados. Com a evolução das gráficas eles passaram a ser impressos com clichês a traço ou em policromia.

É de se notar que em muitos exemplares aparecem figuras de artistas de cinema, chamando a atenção dos leitores. As ilustrações conferem aos opúsculos uma estética própria e facilmente reconhecida pelos seus traços naifs. O entitamento feito em preto, muitas vezes apresenta variantes por serem impressas em papeis coloridos, geralmente em rosa, verde ou amarelo.

Os ilustradores

Dos nove ilustradores só a artista Marianna Steffens não está ligada diretamente ao cordel. Seu trabalho, como artista plástica, consiste apropriação da linguagem dos cordelistas para ilustrar narrativas dos livros de Martin que deram origem a serie Game of Thrones, do HBO. J.Borges, Erivaldo, Maxado, MS (Marcelo Alves Soares) JVicttor (Jorge Victtor), JMiguel, Severino Borges e Mestre Noza são nomes consagrados reunidos nesta mostra.

Mais informações:

Forum da Cultura – (32) 3215-3850

www.ufjf.br/forumdacultura

 

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